O Escritor

O escritor queria escrever. Sentou-se em sua cama, travesseiro sob cabeça, caderno sobre colo e lápis na mão. Tudo em seu devido lugar. Mas o que isso significa? “Onde é o meu lugar?” – pensava o escritor. Devo escrever? Devo ler? Devo amar ou odiar? Comer ou beber? Dormir ou continuar acordado? Sonhar ou… E o escritor pensava, pensava e pensava mais um pouco. Não sabia qual livro ler ou qual história escrever. “Há tantas opções!” – dizia para si mesmo. E o caderno ansiava pelo grafite durante horas e horas, sem nada obter, até que o escritor caísse no sono, deixando ambas, escrita e leitura, para o mundo dos sonhos e pesadelos.

A mesma história se repetia noite após noite, dia após dia, e o escritor nada escrevia. E os anos, assim como o caderno e o lápis, eram trocados e descartados na lixeira do tempo.  Ele passou a ser conhecido como o homem-que-nada-fazia. Todas as vezes em que olhava o espelho ele enxergava o reflexo de uma casca sem vida e sem cor. E quando falava em voz alta, sua voz lhe era estranha e seus pensamentos não eram mais seus. Um estranho de si mesmo! Mas eis que um dia o estranho escritor decidiu escrever. Não aquela decisão que havia tomado há anos, mais sim uma atitude concreta.

Suas primeiras palavras surgiram tímidas e fracas, contando o relato de sua própria história. E quanto mais ele escrevia, mais tinha vontade de escrever. As respostas que tanto procurava surgiam de seus atos, assim como um leque extenso de novas perguntas. “Ler ou escrever? Por que temos que escolher?” E devagarinho foi percebendo que todo escritor é também um leitor, e que ele ama, vive, odeia, come, erra e acerta.  Assim como é também o pai, o amigo, a mãe, o vizinho, o inimigo mortal ou o amor de uma vida.

E o escritor percebeu que também era um livro cujas páginas eram escritas a cada passo, a cada choro, a cada sorriso… E que sua história poderia ser lida e vivida por muitos.

Somos muitos em um, mas também um em muitos.

E assim o escritor entendeu que o seu verdadeiro lugar era no livro da vida.

Rafael L. Toscano