um lobo

Furtivo e cinza na penumbra última,
vai deixando seus rastros pela margem
daquele rio sem nome que saciou
a sede de sua goela e cujas águas
não repetem estrelas. Esta noite,
o lobo é uma sombra que está só
e que busca uma fêmea e sente frio.
É o último lobo da Inglaterra.
Sabem-no Odin e Thor. Em sua alta
casa de pedra um rei determinou
que acabassem com os lobos. Já forjado
está o forte ferro de tua morte.
Lobo saxônico, engendraste em vão.
Não basta ser cruel. Tu és o último.
A mil anos daqui um homem velho
te sonhará na América. De nada
há de servir-te esse futuro sonho.
Hoje te cercam os homens que seguiram
floresta afora os rastros que deixaste,
furtivo e cinza na penumbra última.

Jorge Luis Borges

Borges dispensa apresentações. O escritor argentino, um dos maiores prosadores da língua espanhola, de estilo inconfundível e inimitável, inspira diversos escritores ao redor do mundo. Suas palavras nos conduzem a sentimentos e interpretações diversas, uma viagem prazerosa ao vasto mundo da literatura.

Cada viagem é única, como um rio “cujas águas não repetem estrelas”. Tais viagens, muitas vezes, são impelidas pelos rastros deixados por lobos, furtivos e cinzas na penumbra. Mas o viajante também deixa seus rastros. Estes, em diversos momentos, confundem-se com os de outros lobos, e sua viagem não é só sua.

A que lugares as palavras do texto de Borges te levam? Quais autores e quais pessoas deixaram rastros capazes de incitar-lhe a viagens incríveis?

Desejo a todos uma ótima viagem. Até a próxima!