Escrevendo…

Eu quero que você leia meus textos e sinta, em cada frase, uma sensação diferente. Quero passar com cada nome de personagem, em cada situação, um sentimento, uma impressão. Posso escolher um nome que lhe faça pensar no verão, em calor e sol, assim como posso tentar passar uma sensação de chuva e escuridão. Mas ai você pode se perguntar: como conseguir isso se cada pessoa pode perceber e sentir situações de maneiras diferentes?     

Sei muito bem que a maneira como percebemos acontecimentos é guiada por uma quantidade de fatores que tende a infinito. Para exemplificar eu gostaria de citar o por do sol. Sentado sozinho em uma praia, olho para o horizonte e vejo o Sol se por tão lentamente, daquela maneira como o tempo move o ponteiro das horas e faz crescer barba e cabelo. Como percebê-lo? Isso vai depender de detalhes mais óbvios e locais como, “Meu dia foi bom? Estou bem? Briguei ou me diverti muito? O que me trouxe a essa praia?”, assim como informações mais macroscópicas e globais, como, “Estou solteiro ou casado? Meu dia foi ruim, mas tal problema tem sido uma constante ou uma variável instável? Essa é a primeira vez que estou aqui, olhando para este sol, sentindo-o, ou faço isso com muita frequência?”. Ou seja: o “como” e o “o que” sentir são definidos pelo que somos. Tem tudo haver com o momento e com as experiências.  Faz parte de nossa personalidade.

Voltemos então ao por do sol. Num momento ruim, posso olhar para ele e pensar na morte e na mentira. Uma morte de mentira. Uma pequena travessura da natureza. O sol morre, esta é a impressão que tenho. Ele some e tudo vira trevas. Tudo acabou. Mas no outro dia ele volta e repete sua mentira para todo o mundo ver e lembrar que o fim sempre chega. Ele pode demorar e se mover de tal modo que não sejamos capazes de perceber – lembra-se do ponteiro do relógio? -, mas ele sempre chega. A hora sempre chega!

Agora, se estou olhando para o sol e me sinto bem, feliz, bem feliz, o poente pode ser interpretado como um fenômeno diferente. Olho para o mar e vejo o reflexo de seus raios tortos, perfeitos em sua imperfeição. Vida! Aprecio o vento que cisma em afirmar que estou vivo. Ah, e como isso é bom!  Uma verdade que a natureza vem nos mostrar com o início da noite. Sinto um calor interno, saudade e certeza. Certeza de que dias como o de hoje podem se repetir. Quem sabe amanhã ou depois? Quiçá mês que vem? Ninguém sabe quando, mas ele virá e, apesar de todas as coisas chatas e problemáticas, fico aliviado de que, amanhã – de sabe-se lá -, poderei me sentar aqui mais uma vez e pensar somente em como é bom viver, pois, como diria Fernando Pessoa: “As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.

Respondendo, então, à pergunta, posso dizer que tal escrita não me parece fácil e, muitas vezes, diria impossível. Mas, acredito, que todo escritor tem na escrita alguns objetivos intrínsecos. E escrever, muito mais que uma simples obrigação de “fazer sentir”, está mais ligado ao “sentir” em si. Muitos escrevem por desafio, por obrigação, para provar alguma coisa a outrem ou a si mesmo, outros escrevem para que lhe enxerguem com maior nitidez ou para que possa enxergar melhor a si mesmo. Aprendizado! Existem também aqueles que fazem de suas crias um espelho. Alguns côncavos, outros convexos. Poucos planos, claro. Outros escrevem pelo simples prazer de criar realidades, personalidades, pessoas únicas e singulares. Quem não gosta de brincar um pouco de Deus?  Enfim, cada escritor tem seus próprios objetivos, seus porquês, uma pitada de personalidade que define cada um de seu trabalho, seja este amador ou profissional. Mas, talvez, um dos grandes porquês reside no sentimento. Portanto, acredito que o ato de escrever é tão similar ao ato de leitura, a sentar-se ao por do sol e aproveitar o momento. A grande diferença é que, o sol – inspiração – é diferente para cada um de nós.

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