Vingança Nua e Crua


     Essa noite era uma daquelas que Mateus costumava chamar de “difíceis”. Em casa, sozinho, após um dia longo e estressante, tudo o que ele mais queria fazer era tirar os sapatos já nem tão bem engraxados como mais cedo, jogar-se sobre o sofá grande e macio e, assim, descansar ao som de uma música calma e reconfortante. E foi isso que ele fez. Ligou a TV em um daqueles canais de gêneros musicais e sequer se preocupou em fazer uma escolha. Gostava da aleatoriedade daquele ato e só se preocuparia depois, caso necessário, com a reação de trocar de canal ou entregar-se por completo.

     Ah, como aquela música era gostosa! Uma batida lenta, ritmada e suave, um blues que há muito não ouvia. Quantas vezes ele já não sentara e viajara com aquela música, como agora? Talvez devido à influência do cansaço, entregar-se foi muito fácil e, mais rápido do que supusera, aquela melodia lenta e gostosa tocava-lhe a pele como os lábios doces e macios de um longo beijo. O calor de suas notas era como um abraço apertado ou o carinho no pescoço que sempre lhe arrepiava a pele. Quando menos esperava, viu-se desnudo na alma, entregue à mercê de sua própria solidão. Ah, e como isso era bom!

     E foi assim – não pela primeira vez, veja bem! – que, nessa intimidade só sua, ele percebeu que aqueles beijos e abraços calorosos, que aquela pele cheirosa e macia, que aquele cabelo roçando-lhe a face não era fruto de uma mente criativa, nem mesmo de uma realidade reconfortante, mas sim parte das inúmeras lembranças de Marcele. O que a alguns segundos era serenidade transformara-se em um sentimento triste de perda e saudade. Aquela solidão companheira e compreensiva de outrora mostrava sua cara em um sorriso maléfico, dançante, ao som daquele maldito e incansável blues. “Solidão! Pfff… A mão que afaga é a mesma que apedreja! Nunca pensei que Augusto dos Anjos estivesse tão certo. Já deveria ter me acostumado!”, pensou. Após um longo suspiro, levantou-se e desligou a TV.

   Marcele era uma daquelas mulheres que viviam sempre com um sorriso no rosto. Sempre que ouvia essa música ele se lembrava do quanto ela gostava de sentar ao seu colo e sussurrar baixinho cada palavra em seu ouvido. Gostava de pensar que herdara dela essa paixão pelo aleatório.

          – O que você quer fazer agora, amor? – perguntava ele, sem conseguir se segurar.

          – Pare de pensar e deixe rolar. Dance comigo ao ritmo da vida. – era essa a resposta habitual de Marcele e também a sua favorita.

     Embalados pela “música da vida” e pelo blues, o casal decidiu, numa noite abafada de fevereiro, pegar o carro e realizar um sonho que há muito planejavam: viajar sem destino, conhecendo novas estradas, novos hotéis, novas paisagens.

             – Precisamos sair um pouco da rotina, querido. Precisamos acordar com a incerteza, entende o que quero dizer? Estou cansada de acordar sabendo que vou levantar, fazer a comida, fazer isso e aquilo. Vamos? – dizia ela com um sorriso tão lindo e meigo que nem mesmo o Papa seria capaz de recusar-lhe um favor, por mais pecaminoso que fosse.

     A única exigência de Marcele era que ela passasse na casa de seu amigo Carlos para que pudesse pegar sua necessaire que havia esquecido no dia anterior, após o final de semana no qual Carlos ofereceu um churrasco para os amigos e alguns familiares em comemoração ao seu novo cargo na empresa. “Fui promovido a gerente administrativo, porra! Exijo a sua presença aqui em casa nessa sexta-feira. Pode trazer o seu namorado também, claro.” Foram exatamente essas as palavras repetidas por Marcele após a breve conversa com Carlos ao telefone.

   Sendo assim, após separarem algumas roupas, dinheiro e todas as coisas que julgavam básicas e fundamentais para viajantes, Marcele pegou seu  carro e se dirigiu até a casa de Carlos. Mas as coisas não ocorreram como o planejado.

     A lembrança calorosa do seu amor sempre vinha acompanhada do inevitável calafrio da lembrança daquele acidente de carro. Era como estar na praia em um dia ensolarado e, de repente, uma nuvem pesada estagnasse em frente ao Sol, causando desânimo e desapontamento. Só de pensar no destino trágico de sua noiva ele sentia náuseas, náuseas essas que sempre lhe minavam a vontade e a esperança de um futuro feliz. “Se não fosse por aquele imbecil ela ainda…”, mas não gostava de pensar nesse tipo de coisa. Como um simples detalhe pode acabar com a vida de uma pessoa? Se ela não tivesse esquecido aquela necessaire. Se o idiota do Carlos não tivesse insistido TANTO para que ela comparecesse àquele churrasco…

     Ele não conseguia lembrar de uma imagem sequer daquele acidente e isso, de certa maneira, lhe gerava duas sensações distintas: a primeira era tranquilidade, pois ele preferia lembrar-se de uma Marcele alegre e com vida. Já a segunda era inquietude. O trauma fora tão grande que sua mente bloqueara, por proteção, qualquer lembrança – por menor que fosse – daquele evento. E isso era um tanto quanto curioso.

     Tentando livrar-se daquela solidão sufocante, Mateus decide “dar uma volta”, como costumava dizer, pelos bares da rua. E por “dar uma volta” ele queria dizer “encher a cara”. Mas não foi necessário chegar ao primeiro bar, à calçada, ou mesmo abrir a porta para matar sua carência de companhias inúteis: quando virou-se para sair encontrou seu amigo Maurício sentado numa cadeira próxima à porta, com as mãos cruzadas sob o queixo.

             – O que você está fazendo aqui? E como entrou? Você me deu um baita susto, idiota! – disse Mateus, pego de surpresa.

     Maurício, com seu sarcástico  e habitual sorriso no rosto, olhava para Mateus sem dizer uma palavra. “Há meses que não o vejo e esse filho-da-mãe sequer mudou a barba!”, pensou Mateus.

            – O tempo passa e você continua ridículo e chorão. Impressionante! Além disso você não perdeu o péssimo hábito da chave sob o capacho. Já cansei de lhe dizer que a culpa não foi sua. Se existe um culpado nessa história toda e que está impune até agora é o tal do Carlos.

           – Que seja! Não há nada que eu possa fazer. Foi pra isso que você veio aqui? Para encher o meu saco?

           – Na verdade eu vim aqui porque me preocupo com você. Já passou da hora de você dar um ponto final nessa história toda e, para que servem os amigos além de apoio e incentivo?

     Nesse momento, Maurício levanta de sua cadeira e dirige-se ao quarto de Marcele. Mateus o segue, incrédulo, sem sequer desconfiar das intenções de seu amigo. Maurício abre a porta, dirige-se à cômoda da parede a esquerda e abre uma gaveta. Ele parecia saber o que estava fazendo. Movia-se e agia como se a casa fosse sua e como se conhecesse cada cômodo, cada gaveta, cada segredo.

          – Eis o que você deve fazer. Ou não tem culhões para isso? Planejamos isso tudo a toa? – e, após dizer tais palavras, Maurício joga sobre a cama arrumada uma pasta gorda e inchada, repleta de fotos e papéis rabiscados. A imagem daquela pasta veio em sua mente como um coice. Quando viu Maurício sentado naquela cadeira, na sua sala, ele no fundo sabia o porquê daquela visita. Eles haviam conversado sobre ela logo após o acidente com Marcele. “Voltarei daqui a alguns meses. Preciso arrumar minha vida antes de voltar”, disse Maurício na época. Mas aquela pasta e aquela visita pertenciam a um lado obscuro da sua vida. Um lado que Mateus lutava para se livrar, para destruir, mas que nunca conseguia. Afinal, de uma forma ou de outra, aquilo tudo fazia parte do que ele era. Livrar-se da sombra era o mesmo que amputar uma parte de si. E ninguém quer isso, concorda?

   Empolgado como uma criança montando seu novo brinquedo, Mauricio expunha o material e os planos que eles tinham registrado naquela pasta. Ao ver aquelas imagens do homem que culpava pela morte de sua namorada, Mateus não conseguiu evitar os pensamentos de vingança. Seu lado sombrio acordara e voltava à superfície de maneira tão rápida e feroz que não foram necessários nem dez minutos para que Mauricio lhe convencesse e ele decidisse, de forma definitiva, a por seu plano em prática.

     Passados alguns dias, tudo estava preparado. O plano era simples, sujo e fácil: eles sabiam que Carlos costumava correr aos sábados a noite e, logo depois, voltar para casa, tomar um banho e ficar assistindo TV, acompanhado apenas de algumas latas de cerveja, até cair no sono. Aos domingos ele era acordado por uma linda mulher que lhe fazia visitas pontuais, as oito horas da manhã, e costumava passar o dia todo com ele. Pois ela teria uma desagradável surpresa ao acordá-lo no próximo encontro. Uma vingança nua e crua.

***

     A noite estava clara e tranquila. Pelo menos no bairro pacato onde Carlos morava. Olhando para ver se ninguém estava por perto bisbilhotando, Mateus corre para a lateral esquerda da casa, onde ficava a garagem. Ao lado do portão maior para o carro, havia um menor que levava a um corredor estreito entre a casa e o muro. Sem muita dificuldade, Mateus pula e fica escondido, aguardando Carlos voltar de seu cooper noturno. Após uns vinte minutos de espera, a luz do poste mais próximo denunciou sua chegada. Gira a chave, bate a porta, caminha a passos firmes. Cada movimento podia ser ouvido pela parede de madeira e Mateus aproveitava isso tentando alcançar alguma janela próxima. Em pouco tempo ele ouve um barulho de chuveiro. “Agora é a hora!”, pensou. Lentamente ele abre a janela da sala e entra, sem muitas dificuldades.

     O cômodo estava escuro. A única luz que iluminava o ambiente era a do banheiro onde Carlos tomava banho. O ar pesado e com forte cheiro de livros e tabaco lhe fez lembrar uma casa de um senhor escritor: uma grande estante de mogno envernizada e repleta de livros antigos. No centro, uma pequena mesa, também de madeira, ladeada por poltronas coloniais. No chão, um grosso carpete vermelho que abafava os passos de qualquer um que lhe pisasse. Mateus duvidava que algum dia Carlos tenha lido algum daqueles exemplares de Filologia ou que sequer tenha perdido noites de sono escrevendo naquela mesa. Nada daquilo era a sua cara. Talvez essa casa tenha sido passada de geração em geração, de pai para filho.

     Imerso naquele ambiente, Mateus ergue a faca com a mão direita contra a luz vinda do banheiro. Sua mão estava firme, nada de tremedeiras. Isso era um bom sinal. Significava que não hesitaria, que era exatamente isso que deveria ser feito. Caminhando a passos curtos, Mateus aproxima-se da porta do banheiro. Carlos estava cantarolando alguma música ridícula e infantil, como se estivesse alegre ou algo assim. A porta estava entreaberta e um vapor denso saia por ela. Arriscou uma olhadela de um olho só. A porta do box estava aberta. Nela, duas toalhas penduradas. Ele estava tão distraído com sua canção e com a água caindo sobre seu rosto que sequer foi capaz de perceber quando Mateus aproximou-se sorrateiramente. Com um único golpe, enfia-lhe a faca entre as costelas, tapando-lhe a boca. Tudo que se ouvia era o barulho da água caindo no chão e os suspiros abafados de Carlos. A faca penetra-lhe a carne uma, duas, três, quatro vezes, e, após longos segundos, Mateus sente o peso da pessoa morta em seus braços e o deita no chão. No semblante de sua vítima era possível distinguir o pavor e o medo.

     Seus braços, calça, camisa… tudo estava repleto de sangue. Uma grande sujeira. Levantou então o braço e desligou o chuveiro. Ficou sentado em meio àquela bagunça pelo que lhe pareceram horas até que, em meio àquele vapor, aparece a imagem de Marcele vestindo uma camisola rosa. Sua pele continuava branca como a neve, lisa; seus cabelos negros, soltos, caídos sobre seus ombros delicados: idêntica à última noite que estavam juntos. Exceto pelo lindo sorriso que não mais existia. Seu semblante era de tristeza e nojo. Tudo aquilo era muito real. Real como se nunca tivesse havido acidente algum. Como se os dias não tivessem passado e eles tivessem acabado de voltar daquele churrasco. Como se há poucas horas estivessem conversando sobre viajar, desbravar o mundo e ir pegar a necessaire na casa de Carlos.

             – O que você fez? – suas palavras chorosas tocaram Mateus de uma maneira horrível. Tudo aquilo ERA real. Ele não estava sonhando com Marcele: ela estava ali, viva, a poucos passos de distância.

     E, lentamente, a sua memória foi ficando clara como o dia e ele pôde se lembrar. Não houvera acidente de carro, nem mesmo a morte de Marcele. Tudo aquilo fora um sonho, uma invenção da sua mente doentia. Agora Mateus se lembra dela saindo de casa para pegar sua necessaire e demorando para voltar. Lembra-se das fotos do detevive particular, dos meses de investigação e da raiva por saber o motivo real daquela visita. Lembra-se do momento em que pegou as chaves do carro e dirigiu até a casa de Carlos, com ódio. Lembra-se de como entrou pela porta da frente que estava encostada, do cheiro de tabaco, da luz do banheiro e da triste realidade que se apresentava: Marcele e Carlos estavam tendo um caso. E de, por fim, em seu desespero, ter procurado por uma faca, de como dera fim à vida daquele homem e de como jogara tudo que construíra na vida pelo ralo.

             – A polícia já está a caminho. Você nunca deveria ter saído do hospital. Isso tudo é culpa minha. Eu pensei que estivesse curado.

             – A culpa não é sua… – respondeu Mateus.

     E então, mais uma vez, Mateus esperou, olhando pela última vez para a mulher que amava, ouvindo a risada fria de seu amigo Maurício que na sala ouvia um blues melancólico que só os dois eram capazes de ouvir.

Rafael L. Toscano

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   Olá! Agumas das pessoas que chegaram até aqui – e leram todo o conto! – podem estar com algumas perguntas na cabeça. Eu deixei uma questão em aberto de propósito. Isso faz parte do “psicológico” (como assim?) do texto, da história, do personagem Mateus. Se tiverem alguma dúvida, crítica (construtiva), correção (sempre escapa algum erro bobo) ou opinião podem deixar um recado neste conto que eu terei um enorme prazer em respondê-los.

   Esse é o primeiro conto desse estilo no blog. Espero que não tenha ficado ruim, rs.

   Desculpem-me se a formatação do texto não estiver muito agradável.

   Até o próximo conto!

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4 comentários sobre “Vingança Nua e Crua

  1. Obrigado pelos comentários.

    Bom saber da opinião de vocês.

    Ju: sim, era essa a ideia. Não que todos os contos aqui postados farão alusão a tais personagens, mas certamente alguns deles (em especial) terão participações recorrentes.

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