O Paradoxo e o Sentido de Ser Humano

Acordo em meio a essa chuva e meu primeiro pensamento não é na janela aberta, nem nos meus gatos ou no que comi há algumas horas. A primeira coisa que pensei foi: quantas pessoas estão sob os escombros dos prédios que caíram no centro histórico do Rio de Janeiro? Uma pergunta tão matemática, tão fria, tão objetiva e simplista esconde muito mais do que aparenta. Ela é ladeada e inspirada em pensamentos muito mais profundos, muito mais complexos e, também, instiga-me a pensar e a questionar muitas coisas sobre as pessoas que conheço e a mim mesmo – o meu maior desconhecido.

Qual a única certeza que temos em vida? A morte. Porém, o que mais me causa estranheza é o fato de que, todos os dias lutamos para nos firmarmos sobre uma base sólida, para criarmos certezas. Não gostamos do incerto pois a incerteza é inimiga do conforto. E quem quer sair da sua zona de conforto? Nos agarramos a certezas tão incertas, a mentiras mascaradas de verdades… queremos viver mais, mas esquecemos, todos os dias, que a única certeza que temos na vida é a morte e, com isso, deixamos de dar valor aos detalhes, às belezas e às coisas que amamos.

Quantas vezes deixamos de agir ou afastamos a felicidade por causa de medos absurdos? Ou, ao contrário, agimos, mas de maneira destrutiva, causando repulsa aqueles que nos amam? Por causa de falsas verdades que criamos para não sairmos da nossa zona de conforto? Por acreditarmos que sabemos de tudo e que a vida é regida por fórmulas frias e banais? Pensamos e tememos tanto o futuro, mas tanto, que deixamos de viver o agora com medo que todas as nossas certezas venham a desmoronar, como aqueles prédios no centro do rio. Mais uma vez, esquecemos que o futuro transforma-se em presente a cada segundo e que, dez anos se passarão sem sequer percebermos e, quando olharmos pra trás, perceberemos que demos poucos passos. Enquanto isso, a morte – certeza renegada -, nos aguarda quieta e paciente.

Algumas pessoas olham ao mundo sem fazer especulações. Jogam o que lhes define como humano para o canto mais obscuro de seu lar, pois têm medo de perceber que são humanos. Porque Humanos sentem dor, sofrem, têm prazer e têm momentos de felicidade. Mas isso é tão arriscado! Para que ser humano se tudo é tão difícil? Mas essas pessoas, justamente por abandonarem sua essência, não sabem que, mais cedo ou mais tarde, aquele ser que ele tanto desprezou, que tanto maltratou, e que deixou acuado nos cantos mais sombrios uma hora retornará à procura de liberdade e de tudo aquilo que lhe foi tolhido. E quando isso acontecer, ele olhará pra trás e entenderá que, mesmo sem percebermos, o ponteiro do relógio se mexe sim, devagar, devagar, devagar… e a morte, paciente e fria, estará lhe estendendo a mão, dando boas vindas à nova morada.

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Trechos – A Hora dos Assassinos

Não li sequer a metade do livro e já tenho trechos fantásticos separados, que gostaria de compartilhar aqui.

Obras muito boas como “A Hora dos Assassinos”, de Henry Miller, são muito maiores que seu autor, como diz um grande amigo meu. Algumas obras são capazes de transformar gerações, de instigar-nos a sair da nossa zona de conforto e começarmos a pensar. Sair um pouco do chão e nadar, nem que seja por algumas horas. Essa experiência pode instigar-lhe a uma fome indescritível, que nenhuma palavra será capaz de saciar. E essa fome é capaz será capaz de moldar seus atos e sua própria alma. Talvez ela seja um espelho capaz de mostrar-lhe partes desconhecidas de si próprio ou mesmo um telescópio, capaz de lhe fazer enxergar muito além.

Trago aqui dois trechos que gosto muito e que não pude deixar de compartilhar com vocês.

 

Quanto às aparencias, bem, o homem que os outros vêem aos poucos foi aprendendo a se acomodar às imposições do mundo. Hoje ele é capaz de estar nele sem fazer parte dele. Pode ser amável, gentil, benévolo, hospitaleiro,. Por que não? “O verdadeiro problema”, como frisou Rimbaud, “é tornar a alma mostruosa”. O que significa não horrenda, mas prodigiosa! Qual o sentido de monstruoso? Segundo o dicionário: “qualquer forma organizada de vida extremamente anômala, seja por falta, excesso, deslocamento ou distorção de partes ou órgãos; por consequinte, tudo o que for horrendo ou anormal, ou constituído de partes ou caracteres inconsistentes, sejam repulsivos ou não.” A raiz vem do verbo latino moneo, advertir. Na mitologia, reconhecemos o monstruoso sob as formas da haripa, da górgone, da esfinge, do centauro, da dríade, da sereia. Todos são prodígios,que é o sentido essencial da palavra. Perturbaram a norma, o equilíbrio. O que significa issso senão o medo do homem comum? 

 As almas tímidas sempre vêem monstros pela frente, seja lá o nome que tenham, hipogrifos ou hitlerianos. O maior pavor humano é o da expansão da consciência. Toda a parte assustadora, hedionda da mitologia deriva desse medo. “Vivamos em paz e harmonia!” suplica o medíocre. Mas a lei do universo determina que a paz e a harmonia só podem ser conquistadas pela luta intima. O medíocre não quer pagar o preço desse tipo de paz e harmonia; quer encontrá-lo já pronto, feito terno confeccionado em série na fábrica.
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Apesar dos desmentidos dos cientistas, o poder que agora temos em nossas mãos é radioativo, é permanentemente destruidor. Jamais nos lembramos do poder para o bem, só para o mal. Não há nada de misterioso em torno das energias do átomo; é nos corações humanos que reside o mistério. A descoberta da energia atômica ocorreu simultaneamente com a descoberta de que nunca mais poderemos confiar uns nos outros. É aí que está a fatalidade – neste modo apocalíptico que nenhuma bomba pode eliminar. O verdadeiro renegado é o homem que perdeu a fé em seu semelhante. Hoje essa perda é universal. Nesse sentido, o próprio Deus nada mais pode fazer. Colocamos a nossa fé na bomba e é ela que atenderá nossas preces.
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O poeta hoje é tão obrigado a desistir de sua vocação porque já demonstrou seu desespero, já reconheceu a própria incapacidade de comunicar-se. Ser poeta era antigamente a vocação mais sublime; hoje é a mais fútil. E isso não porque o mundo seja imune às súplicas do poeta, mas porque ele mesmo não acredita mais no caráter divino de sua missão. Já vem cantando fora de tom há mais ou menos um século; por fim não conseguimos mais sintonizar. O assobio da bomba ainda tem sentido para nós, mas os delírios do poeta parecem disparates. E são um disparate se, de uma população mundial de dois bilhões de habitantes, apenas um punhado finge entender o que o poeta individual está dizendo. O culto da arte não preenche sua finalidade quando só existe para meia dúzia de homens e mulheres privilegiados. Então não é mais arte, mas a linguagem cifrada de uma sociedade secreta para a propagação de uma individualidade descabida.  A arte é algo que incita as paixões humanas, que dá visão, lucidez, coragem e fé. Que artista da palavra, nestes últimos anos, incitou o mundo como Hitler? Que poema abalou o mundo, recentemente, como a bomba atômica? Desde o advento de Cristo que não se viam cenas semelhantes a se desenrolarem, se multiplicarem, diariamente. Que armas tem o poeta, em comparação? Ou que sonhos? Aonde foi parar a sua decantada imaginação? A realidade está aí, diande de nossos próprios olhos, completamente nua, mas onde está o cântico para anunciá-la? Existe algum poeta visível, de quinta magnitude ou menos? Não vejo nenhum. Não chamo de poeta quem apenas faz versos com ou sem rima. Para mim, poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta os corações humanos, que faça borbulhar o sangue. Se a missão da poesia é despertar, há muito tempo que deveríamos ter acordado. É inegável que alguns acordaram. Mas agora são todos que devem despertar – e imediatamente – senão pereceremos. Só que o homem jamais perecerá, fiquem tranquilos. O que corre o risco de perecer é a cultura, a civilização, o estilo de vida. Quando esses mortos despertarem, e é certo que despertarão, a poesia será a própria essência da vida. Podemos arcar com a perda do poeta se em troca preservarmos a poesia. Não se precisa de papel nem tinta para criar ou disseminar a poesia…
Este livro foi escrito em 1955, por Henry Miller e continua atual. Não vou falar muito mais sobre o livro. Espero que tenham gostado e que venham a lê-lo, para melhor entender sobre o que se trata. E quem já leu, que possa relembrar um pouco das suas palavras e do que ele representa.