Um momento, e nada mais!

São vinte e três horas. Abro a janela e, de todas as estrelas que a convenção divina convidaria aos céus, encontro justamente aquela que não deveria estar ali.

Espero a luz amena de um céu de estrelas e o abraço suave e doce da brisa noturna, acompanhado do olhar de uma lua tímida;

Encontro a luz de um sol irrequieto e o sorriso – efeito da minha surpresa! – traduzido em calor.

Nenhum relógio do mundo saberia precisar o tempo que fiquei ali, naquela janela sem motivos ou pretensões, entregue a um acaso irracional.

Pelo que me pareceram dias fitei-o incrédulo com o medo sutil do ignorante.

Mas soube aguardar. Esperei até que a minha pele queimasse por completo. Esperei até que minha carne se desmanchasse, pois eu queria entender. E o que antes era medo, transformou-se em um querer-sentir, em um viver jamais vivido; transformou-se no grito que nunca foi gritado, na dor que nunca foi sentida no horror indizível e no prazer jamais proporcionado.

O nada metamorfoseou-se em tudo.
E tudo que entendi é que nada deve ser entendido.

Assim, quando não existiam mais olhos para olhar, pude enxergar o brilho da lua que ali me acolhia.

No céu, dentre tantas estrelas, somente uma lua.
Olho para meus braços, para meu corpo;
olho para o relógio:
São vinte e três horas

Estando ambos aliviados – lua e eu – fecho a janela e deito-me a sonhar todos os sonhos do mundo.

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Como a Morte se Infiltra

Certo dia, não se levanta
porque quer demorar na cama.

No outro dia ele diz por que:
é porque lhe dói algum pé.

No outro dia o que dói é a perna,
E nem pode apoiar-se nela.

Dia a dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.

Dia a dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.

Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.

Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,

Outra semana sempre adiada,
que ele não vê por que apressá-la.

Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.

Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.

Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.

Quem deixou-o, a respiração ?
Muda de cama. Eis seu caixão

João Cabral de Melo Neto