A Casa dos Desejos


     Andando sozinho numa rua deserta. Nada nem ninguém para me chamar a atenção. Pelo menos essa é a impressão que tive e que tenho sempre que estou andando e olhando para o nada, pensando na vida ou na morte. Mas naquela quarta-feira aconteceu algo diferente. Lembro-me que o dia estava nublado, as nuvens projetando para o resto do mundo o meu estado de espírito: um lúgubre e tenebroso inverno de pessimismos e descrenças que acompanha o coração daqueles que vivem uma decepção. O tempo se arrastava lentamente. Não demorou muito, trovões inundaram as ruas com seus sons agourentos e um ar carregado de cheiro de chuva invadiu minhas entranhas. Até que desisti e parei por alguns segundos. O mundo pedia para que eu parasse e me entregasse. E eu obedeci! Foi ai que avistei, do outro lado da rua, num muro cinza e maltratado, um letreiro torto e fosco cujas palavras me chamaram a atenção. Sentia o gosto do convite e fiquei com água na boca. Um convite para o novo, para aquilo que eu realmente precisava.

A Casa dos Desejos

O casebre me atraiu como um ímã e não pude conter minhas pernas. Em poucos segundos já estava subindo os degraus da escada interna. A madeira rangia enquanto eu subia e seu som me trazia bons presságios. Presságios de mudança.”, pensei. A escada dava para um corredor antigo e o que antes era um cheiro de chuva transformou-se em cheiro de mofo. Em ambos os lados os papéis de parede estavam manchados com marcas de infiltração e, em alguns pontos, rasgados. Apesar da aparência peculiar, senti-me acolhido e protegido sob o teto daquela velha senhora. No final do corredor, em contraste com o restante do ambiente, uma grande porta de madeira, envernizada e muito bem conservada , encontrava-se semiaberta. Com os nós dos dedos, dou algumas batidas para anunciar a minha presença. Nenhuma resposta. Mas senti que não poderia parar. Não devo parar! – pensei. Naquele momento a curiosidade já havia tomado conta de mim.

Ao abrir a porta, deparei-me com um cômodo pouco iluminado, a mercê de algumas poucas velas espalhadas sobre imponentes móveis de madeira. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma pequena mesa redonda que se encontrava no centro da sala, com duas cadeiras dispostas de modo que seus ocupantes ficassem um de frente para o outro. No centro dela, somente um baralho. Após dar alguns passos em direção à mesa, uma mulher surge através de uma porta do lado oposto da sala. A sua presença me paralisou. Não foi a beleza do seu corpo adornado por um vestido preto e delicado, seu cabelo longo emoldurando um rosto branco que carregava lábios pintados por um batom vermelho convidativo, nem o modo como ela segurava as duas taças de vinho tinto que me paralisaram, mas sim a sua presença e o seu olhar.

-Sente-se, rapaz! Sua aparência me faz pensar que você precisa descansar, conversar e ouvir algumas palavras. Gosta de vinho?

Fiquei calado pelo que me pareceram horas. A sua voz me tranquilizou de uma maneira que jamais esquecerei. Sentia-me como se a conhecesse a anos, como se sua voz despertasse em mim a esperança e o calor que há muito haviam me abandonado. Normalmente tal convite me causaria um sentimento de  desconfiança que provavelmente me faria recusar o convite, mas naquele momento a única coisa que senti foi uma vontade enorme de sentar naquela mesa, tomar aquele vinho e ouvir o que quer que ela tivesse para me contar.

-Pensei que você não fosse aparecer. Seria uma pena. Um desperdício, na verdade. – Surpreso e um tanto quanto confuso, demorei para conseguir dizer as primeiras palavras.

-Você estava me esperando? Como? Por que? E quem é você? – Com um breve sorriso e um balançar de cabeça ela me fita nos olhos.

-Como sou mal educada! É claro que você não tinha como saber. Claro! Prazer, meu nome é Vanessa. – disse, levando a mão direita à frente, num gesto de cumprimento.

-E eu me chamo Fernando. Mas pode me chamar de Nando. – respondi, apertando-lhe a mão. – O que você quis dizer com desperdício?

-Nando, Nando. Você entenderá isso e muitas outras coisas em pouco tempo. Não se preocupe, estou aqui para isso! E, em breve, você também será capaz de perceber as conseqüências de tudo que lhe disse e dei. – suas palavras só me causavam mais dúvida e confusão. Desviei meu olhar para o resto do cômodo, mas ver uma sala limpa e organizada não me ajudava muito a esclarecer as coisas.

-Posso fazer mais uma pergunta? – disse, fugindo de meus devaneios.

-Claro querido. Afinal, você é meu hóspede! Que anfitriã seria eu se lhe negasse o direito a perguntas?

-Hóspede? – respondi, mais alto e rude do que o pretendido. – Na verdade, não pretendo ficar aqui por muito tempo. Já estou de saída. Nem sei o que estou fazendo aqui.

-Mas eu sei. – colocando sua mão em meu rosto, Vanessa me dirigiu um olhar penetrante e sério. O toque gélido de sua mão fez com que eu me arrepiasse da cabeça aos pés. Ao aproximar o seu rosto do meu com um sorriso acolhedor, pude sentir o cheiro de seu cabelo e perceber melhor a maciez de sua mão. Por mais que uma voz dentro de mim me dissesse que aquilo tudo estava errado e que deveria partir, eu não era capaz de lutar. E também não queria fazê-lo.

-Durante o tempo que você permanecer em minha casa eu lhe chamarei de hóspede. – suas palavras puseram um ponto final na questão. Seu tom de voz era firme, austero, uma antítese clara à sua feição.

– Pois bem, faça a sua pergunta.

-Por que “casa dos desejos”? – as palavras saíram com timidez.

-Porque aqui você entrará em contato com os seus desejos mais íntimos e profundos, mesmo aqueles que você não conhece. No seu caso eu sei o que você deseja e o que precisa. E para conseguir o que deseja, você precisa de três coisas. A primeira delas é uma carta. Já a segunda e a terceira dependem do resultado de sua escolha. Portanto, escolha uma e coloque-a desvirada sobre a mesa. – após falar isso, Vanessa me indicou o monte ao centro da mesa. Escolho uma carta aleatoriamente. Nela, somente uma palavra escrita com letras garrafais.

VERDADE

-Uma carta interessante! Você precisa da verdade. Esta, então, é a segunda coisa. A verdade é bastante curiosa, não acha? Ela pode representar várias coisas. Tudo depende do como e do quando. Ela pode, por exemplo, revelar que você é um assassino no momento em que você encontra a sua mulher na cama com outro, e isso é o como – Como a verdade lhe foi apresentada.

– Imagine também que eu poderia ter-lhe apresentado a verdade há alguns dias atrás, antes de você ter matado a sua esposa, mas decidi fazê-lo somente agora. Isso faz parte do quando. Perceba, Nando, que a verdade é uma faca de dois gumes, e precisamos aprender a lidar com ela. Nesse mundo, só é bem sucedido quem sabe utilizá-la corretamente. Estou aqui somente para lhe apresentar a verdade. O resto, o amargo caminho da descoberta e do aprendizado, você terá que percorrer sozinho.

Suas palavras me atingiram como um raio. Não esperava que ela soubesse algo sobre meus erros, meus pecados… Sobre a minha verdade! Ela tocara em uma ferida ainda recente, não cicatrizada. Eu matara a minha mulher e seu amante a sangue frio. Não fui capaz de conter o ódio, a raiva, o instinto e este segredo corroía minha alma e sanidade dia após dia. Não fui capaz de conter minhas lágrimas. Lembro-me de ter começado a chorar desesperadamente, como se estivesse prestes a pagar por todos os meus pecados e o fato de estar arrependido não me livraria do inferno.

– E agora? Qual a terceira “coisa” que eu preciso? Você… irá me matar?

– Como você é ingênuo, Fernando. Não é da morte que você precisa.

– Então…

– Tempo! Você precisa de tempo e eu vou lhe dar todo o tempo que você sempre desejou. Agora beba o seu vinho.

Esquecera-me completamente do vinho. A taça continuava intacta sobre a mesa. Ela não estava completa, de modo que pude tragar todo o seu conteúdo com um só gole. Foi nesse exato momento que Vanessa se levantou. Ela contornou a mesa lentamente, cada passo calculado fria e metodicamente. Minha visão estava embaçada e distorcida. Não era mais capaz de enxergar o seu rosto belo e tentador como outrora. Tudo o que via era uma face cruel, deformada e vil. Quanto mais ela se aproximava mais medo eu sentia. Então essa é a face da verdade? Lembro-me claramente de ter tentado correr, mas meu corpo não me respondia. Tudo que pude fazer foi me entregar e esperar, esperar…

Lembro-me vagamente da primeira vez que acordei. Sentia uma dor de cabeça absurda e uma enorme… sede. Não consigo me lembrar dos acontecimentos que se seguiram, mas não posso esquecer de quando acordei de verdade. Estava em minha casa, no meu quarto e tudo estava repleto de sangue. Sangue nas paredes, no teto, na cama e no meu corpo. Mas não sentia mais medo, nem sede, nem dor de cabeça. Eu estava aliviado. Abri a porta e segui para a sala. Vazia, exceto talvez por uma mesa e um baralho. Lembrei-me de Vanessa e procurei em vão por toda a casa. Olhei para as cartas sobre a mesa e, pela segunda vez, fui tomado pela curiosidade. Peguei o baralho e olhei carta por carta. Para a minha surpresa, todas elas continham o mesmo símbolo, a mesma letra, a mesma mensagem. Verdade. Foi aí que entendi a cruel sutileza de seu jogo.

A cada dia que passa, vejo as minhas ideias sobre passado, presente e futuro se diluírem e misturarem, tornando-se uma só coisa a qual dou o nome de tempo. Hoje caminho solitário pelas ruas, esperando por uma morte que eu sei que nunca virá. E a verdade? Bem… quem sabe, um dia, eu volte a encontrá-la?

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