CRÔNICAS DE ROR: RORÁMIAC


Olá, pessoal! Este post dá sequência aos dois primeiros capítulos das Crônicas de Ror (“O Silêncio de Ror” e “O Despertar de Ror”). Caso ainda não tenha lido as duas primeiras partes, clique aqui.

Sem mais delongas, segue abaixo o terceiro capítulo. Espero que gostem. Caso ainda não sigam meu blog, clique no botão seguir no canto inferior direito da sua tela e cadastre seu e-mail. Também não se esqueça de avaliar e/ou comentar o que acha sobre a história. Até o próximo post e boa leitura!

Obs.: Se vocês estiverem curtindo, providenciarei para que a história esteja disponível também em ebook para que possa ler todos os capítulos no seu tablet, celular e afins. Portanto, contacte-me ou deixe um comentário.


 

CAPÍTULO 3 – RORÁMIAC

     Ror senta-se contemplativo ao lado do monge naquele patamar em ruínas. As copas das árvores colorem a paisagem de um vermelho outonal. À sua frente, árvores milenares ocultam o chão, como se tivessem sido plantadas estrategicamente para proteger o solo dos raios solares. Erguendo-se em meio a elas encontra-se Rorámiac, a montanha mais alta do seu reino. A ela foi dada esse nome em homenagem a Ror e, na sua lingua, significa “Ror, eterno como montanha”, representando todo o esplendor de outrora. “Eterno como montanha… Foram-se todos e me restaram somente nomes. Um homem não vive de nomes. Somente um tolo acredita nisso”, pensa calado. Após alguns segundos, Ror rompe o silêncio.

– Afinal, quem é você?

– Aqui não é mais um lugar seguro. Venha comigo. Vou te levar ao meu abrigo. – diz o monge.

– Como saber que posso confiar em você? – pergunta Ror, desconfiado.

– Pensa em outra alternativa, vossa majestade?

Por mais que o percurso não fosse tão longo, Ror não consegue se lembrar de nada que vê. Pedras gigantescas barram-lhe o caminho, desviando o percurso das águas de rios que não existiam na sua época. Procura ao seu redor algum resquício das antigas estradas de pedra que conectavam sua fortaleza às cidadelas mais próximas, abrindo caminho entre as árvores.  Porém, tudo que vê são matos, fungos… Um ambiente jamais tocado pelo homem – ou assim lhe parece.

Eles então começam a subir Rorámiac por um caminho não tão íngreme, porém sinuoso. Fazem todo o trajeto calados, como se tivessem medo de assustar as criaturas da floresta. Após alguns minutos de caminhada, chegam ao esconderijo: uma pequena caverna sem muitos pertences.

– Você mora aqui? – pergunta Ror, incrédulo.

– Não. Aqui é somente o meu refúgio para meditações. Venho aqui sempre que posso.

–  Então… onde você mora? E, mais uma vez: quem é você? Explique-me o que aconteceu. Sinto como se estivesse num sonho… Não, num pesadelo! Sim, num pesadelo horrível no qual minha família foi tomada de mim, meus salões não passam de lar para ratos imundos e depósito de merda para pombos.

– Não se preocupe. Agora podemos conversar com calma. Meu nome é Viuf e sou monge do templo de Rorámiac. Nosso templo situa-se no topo da montanha. Ele fica em um lugar tão remoto pois assim temos vantagem estratégica. Ninguém conhece a velha montanha tão bem como nós. No momento certo eu te levarei até lá. Por ora, você precisa saber o que aconteceu. Pois bem…

     Há dois séculos atrás, um homem chamado Eclédor…

– Não, não. Espera… dois séculos atrás? Você só pode estar maluco… – Ror interrompe.

– Calma! O mundo não é como imagina que seja, por mais que acredite nisso com seu corpo e sua alma. Voltando…

 

     Há dois séculos atrás, um homem chamado Eclédor chegou ao reino com sua família. Alojou-se em uma das cidades do reino e tentou, de todas as maneiras, contactá-lo. Colocou seu nome na “lista do Rei” e aguardou pacientemente até que Ror, o Eterno, lhe atendesse. Quando esse momento chegou, contou-lhe que era um enviado dos Deuses para salvar Tearor da destruição. Salvar Ror, o Eterno, de ser esquecido. Impedir que sua memória fosse diluída nos mares do tempo.

     Ror, obviamente, não acreditou. “E quem ousaria me destruir?”, perguntou. E Eclédor respondeu: – “O seu próprio povo. Tudo que é eterno sofre mudanças. Seu reino degradar-se-á de dentro para fora a partir da Palavra. Uma palavra jamais ouvida por você e seu povo. Uma palavra que aquecerá o coração frio de cada marido, cada esposa, cada criança. E o golpe final será dado pela própria majestade. A palavra deixará de ser somente um tesouro, uma riqueza, e passará a ser alimento. Quando isso acontecer, seu reinado terá chegado ao fim e você sucumbirá. A menos que você a utilize a seu favor e…”

     Enfurecido, o Rei ordena que tirem-no da sua frente. “Se você voltar a desperdiçar meu tempo com palavras inúteis, ordenarei que arranquem-lhe a cabeça. Por ora, deixarei que a mantenha, pois sou um bom Rei. Portanto, nunca mais cometa tolices na minha presença ou você e seu povo de-sei-lá-onde serão exterminados.”

     Os meses se passaram e Ror não se esqueceu daquele homem. Suas palavras consumiam-no por dentro, dia após dia. Elas não faziam sentido algum para o Rei. O que ele queria dizer por A Palavra? Ordenou que o vigiassem à procura de alguma pista. Seus homens descobriram que Eclédor reunia-se todas as noites com diversas pessoas. As reuniões começaram com um grupo pequeno de cinco ouvintes. Porém, com o passar dos dias, mais e mais pessoas juntavam-se ao grupo inicial. Ao final de alguns meses, dezenas de homens reuniam-se na praça principal da cidade que, naquela época, chamavam de Dacomir – a Pedra Eterna -, para ouvir suas palavras. Para Ror isso já estava indo longe demais. Eclédor alternava sua fala entre a lingua local e um idioma desconhecido, cantado.  Aquilo não poderia continuar, pensou o Rei.

     Assim, numa manhã de frio e neve, Ror cometeu o maior erro que já cometera em toda sua vida: tentar calar a Palavra com a força. Ror vencera a batalha, porém a guerra estava longe do fim. Eclédor não foi encontrado e por um longo tempo não se ouviu falar na Palavra.

     Com o intúito de demonstrar ao povo que a Palavra havia sido erradicada e que tudo estava bem – e também tentando retomar o prestígio do seu povo, mostrando a sua generosidade -, Ror preparou uma festa memorável para comemorar o décimo oitavo aniversário do seu herdeiro. Todos os grandes senhores de Tearor foram convidados. Tudo ocorria como o planejado, até que o inesperado aconteceu – e rapidamente. Eclédor, de alguma maneira, invadira o castelo do Rei e adentrara o salão principal. Pela primeira vez, Ror ergue a Espada do Trono contra um Homem. Derruba os lacaios de Eclédor como simples bonecos, sem dificuldade. Questionou-se como tão poucos homens conseguiram invadir sua fortaleza com tamanha facilidade. Sem saber, seus próprios guardas, povo do seu sangue, já estava dominado pela Palavra. Ela pegara carona com o vento e espalhara-se por todo o reino.

     O caos reinava dentro e fora do castelo.  Nos pátios inferiores, uma procissão de pessoas com roupas brancas agiam como se limpassem o local. Seu filho, sua rainha e seus amigos desapareceram. Ensandecido, Ror correu em direção a Eclédor, espada em punho…

 

– Então não foi mesmo um sonho. – Interrompe Ror com a tristeza estampada no rosto. Ali, sentados naquela caverna, Viuf observa o rosto de Ror, o Eterno. Por anos visitava sua estátua nas Ruínas do Rei à espera do seu retorno. Imaginava-o como um Deus entre os Homens cuja força não possuia limites. Muitas vezes duvidou do que diziam as profecias. Mas agora o Rei estava na sua frente, em carne e osso, com a vida pulsando em suas veias. Ali, em mais uma das centenas de cavernas de Rorámiac, o rei sentava-se como todos os outros homens; bebia sua água como todos os outros seres e a tristeza tirava-lhe o brilho dos olhos como o faz com todos. Seu rosto não carrega cicatrizes de batalha, mas os sulcos da pele cansada de um homem que carregou um peso gigantesco nas costas. Sua barba está para fazer e possui falhas, seu cabelo não é perfeito. Pergunta-se do que seria feito um Rei. O que tornava Ror tão especial, além de ser um homem que dormiu por duzentos anos?

Viuf faz todas essas perguntas em sua mente e lembra-se de Rorámiac. “Eterno como montanha.” Com um sopro de ânimo, o monge levanta-se e caminha até o fundo da caverna, entrando numa femda que Ror julgava ser impossível para uma pessoa passar. De lá, Viuf sai com um embrulho aproximadamente do seu tamanho. Carrega-o com dificuldade até Ror e diz:

– Talvez isso lhe devolva o ânimo e as forças.

Ror abre o embrulho: um cobertor velho, empoeirado e sem estampas. Em seu interior encontra-se Cvenarim, a Espada do Trono. Ele a segura com ambas as mãos. Ao sentir seu peso um calor percorre seus braços, espalhando-se por todo o corpo. Pela primeira vez desde que despertara, sentia-se verdadeiramente vivo. O brilho do metal o lembra do brilho dos olhos da sua Rainha e do seu filho. Assim, sentindo-se vivo novamente, diz:

– Obrigado, Viuf. Prepare-se, pois temos um reino para reconquistar.

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3 comentários sobre “CRÔNICAS DE ROR: RORÁMIAC

  1. Pingback: Crônicas de Ror: O Silêncio de Ror e O Despertar de Ror | Blog do Toscano

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