Sábado, 9:45

Os raios de sol esgueiram-se pelo vão da cortina.
Levanto-me e mergulho em seus finos braços.
Ninguém observa, mas sou levado de mansinho.
Diluo-me pouco a pouco pelas horas da manhã.

Olho meu reflexo escuro sobre a porta do guarda-roupa.
Vejo a sombra do menino que viajou por mares
Selvagens e que retorna toda manhã, as 9:45, para
Coletar um pouquinho das horas que um dia serão suas.

Minha idade espalha-se por todos os cantos.
Os sentimentos agarram-se às paredes brancas
Do Quarto, pintando-as com as mais variadas cores
Enquanto minha face monocromática observa calada,
envolta em nuvens.

O sol transforma-se em lua e os dias não são mais meus.
Despeço-me mais uma vez do garoto teimoso e abraço
a noite para mais um sono de infinitas cores.

Rafael L. Toscano.

Caso queira ler mais textos como este, você pode me seguir no facebook, onde faço posts diários com pequenos textos.

Grande abraço!

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CRÔNICAS DE ROR: RORÁMIAC

Olá, pessoal! Este post dá sequência aos dois primeiros capítulos das Crônicas de Ror (“O Silêncio de Ror” e “O Despertar de Ror”). Caso ainda não tenha lido as duas primeiras partes, clique aqui.

Sem mais delongas, segue abaixo o terceiro capítulo. Espero que gostem. Caso ainda não sigam meu blog, clique no botão seguir no canto inferior direito da sua tela e cadastre seu e-mail. Também não se esqueça de avaliar e/ou comentar o que acha sobre a história. Até o próximo post e boa leitura!

Obs.: Se vocês estiverem curtindo, providenciarei para que a história esteja disponível também em ebook para que possa ler todos os capítulos no seu tablet, celular e afins. Portanto, contacte-me ou deixe um comentário.


 

CAPÍTULO 3 – RORÁMIAC

     Ror senta-se contemplativo ao lado do monge naquele patamar em ruínas. As copas das árvores colorem a paisagem de um vermelho outonal. À sua frente, árvores milenares ocultam o chão, como se tivessem sido plantadas estrategicamente para proteger o solo dos raios solares. Erguendo-se em meio a elas encontra-se Rorámiac, a montanha mais alta do seu reino. A ela foi dada esse nome em homenagem a Ror e, na sua lingua, significa “Ror, eterno como montanha”, representando todo o esplendor de outrora. “Eterno como montanha… Foram-se todos e me restaram somente nomes. Um homem não vive de nomes. Somente um tolo acredita nisso”, pensa calado. Após alguns segundos, Ror rompe o silêncio.

– Afinal, quem é você?

– Aqui não é mais um lugar seguro. Venha comigo. Vou te levar ao meu abrigo. – diz o monge.

– Como saber que posso confiar em você? – pergunta Ror, desconfiado.

– Pensa em outra alternativa, vossa majestade?

Por mais que o percurso não fosse tão longo, Ror não consegue se lembrar de nada que vê. Pedras gigantescas barram-lhe o caminho, desviando o percurso das águas de rios que não existiam na sua época. Procura ao seu redor algum resquício das antigas estradas de pedra que conectavam sua fortaleza às cidadelas mais próximas, abrindo caminho entre as árvores.  Porém, tudo que vê são matos, fungos… Um ambiente jamais tocado pelo homem – ou assim lhe parece.

Eles então começam a subir Rorámiac por um caminho não tão íngreme, porém sinuoso. Fazem todo o trajeto calados, como se tivessem medo de assustar as criaturas da floresta. Após alguns minutos de caminhada, chegam ao esconderijo: uma pequena caverna sem muitos pertences.

– Você mora aqui? – pergunta Ror, incrédulo.

– Não. Aqui é somente o meu refúgio para meditações. Venho aqui sempre que posso.

–  Então… onde você mora? E, mais uma vez: quem é você? Explique-me o que aconteceu. Sinto como se estivesse num sonho… Não, num pesadelo! Sim, num pesadelo horrível no qual minha família foi tomada de mim, meus salões não passam de lar para ratos imundos e depósito de merda para pombos.

– Não se preocupe. Agora podemos conversar com calma. Meu nome é Viuf e sou monge do templo de Rorámiac. Nosso templo situa-se no topo da montanha. Ele fica em um lugar tão remoto pois assim temos vantagem estratégica. Ninguém conhece a velha montanha tão bem como nós. No momento certo eu te levarei até lá. Por ora, você precisa saber o que aconteceu. Pois bem…

     Há dois séculos atrás, um homem chamado Eclédor…

– Não, não. Espera… dois séculos atrás? Você só pode estar maluco… – Ror interrompe.

– Calma! O mundo não é como imagina que seja, por mais que acredite nisso com seu corpo e sua alma. Voltando…

 

     Há dois séculos atrás, um homem chamado Eclédor chegou ao reino com sua família. Alojou-se em uma das cidades do reino e tentou, de todas as maneiras, contactá-lo. Colocou seu nome na “lista do Rei” e aguardou pacientemente até que Ror, o Eterno, lhe atendesse. Quando esse momento chegou, contou-lhe que era um enviado dos Deuses para salvar Tearor da destruição. Salvar Ror, o Eterno, de ser esquecido. Impedir que sua memória fosse diluída nos mares do tempo.

     Ror, obviamente, não acreditou. “E quem ousaria me destruir?”, perguntou. E Eclédor respondeu: – “O seu próprio povo. Tudo que é eterno sofre mudanças. Seu reino degradar-se-á de dentro para fora a partir da Palavra. Uma palavra jamais ouvida por você e seu povo. Uma palavra que aquecerá o coração frio de cada marido, cada esposa, cada criança. E o golpe final será dado pela própria majestade. A palavra deixará de ser somente um tesouro, uma riqueza, e passará a ser alimento. Quando isso acontecer, seu reinado terá chegado ao fim e você sucumbirá. A menos que você a utilize a seu favor e…”

     Enfurecido, o Rei ordena que tirem-no da sua frente. “Se você voltar a desperdiçar meu tempo com palavras inúteis, ordenarei que arranquem-lhe a cabeça. Por ora, deixarei que a mantenha, pois sou um bom Rei. Portanto, nunca mais cometa tolices na minha presença ou você e seu povo de-sei-lá-onde serão exterminados.”

     Os meses se passaram e Ror não se esqueceu daquele homem. Suas palavras consumiam-no por dentro, dia após dia. Elas não faziam sentido algum para o Rei. O que ele queria dizer por A Palavra? Ordenou que o vigiassem à procura de alguma pista. Seus homens descobriram que Eclédor reunia-se todas as noites com diversas pessoas. As reuniões começaram com um grupo pequeno de cinco ouvintes. Porém, com o passar dos dias, mais e mais pessoas juntavam-se ao grupo inicial. Ao final de alguns meses, dezenas de homens reuniam-se na praça principal da cidade que, naquela época, chamavam de Dacomir – a Pedra Eterna -, para ouvir suas palavras. Para Ror isso já estava indo longe demais. Eclédor alternava sua fala entre a lingua local e um idioma desconhecido, cantado.  Aquilo não poderia continuar, pensou o Rei.

     Assim, numa manhã de frio e neve, Ror cometeu o maior erro que já cometera em toda sua vida: tentar calar a Palavra com a força. Ror vencera a batalha, porém a guerra estava longe do fim. Eclédor não foi encontrado e por um longo tempo não se ouviu falar na Palavra.

     Com o intúito de demonstrar ao povo que a Palavra havia sido erradicada e que tudo estava bem – e também tentando retomar o prestígio do seu povo, mostrando a sua generosidade -, Ror preparou uma festa memorável para comemorar o décimo oitavo aniversário do seu herdeiro. Todos os grandes senhores de Tearor foram convidados. Tudo ocorria como o planejado, até que o inesperado aconteceu – e rapidamente. Eclédor, de alguma maneira, invadira o castelo do Rei e adentrara o salão principal. Pela primeira vez, Ror ergue a Espada do Trono contra um Homem. Derruba os lacaios de Eclédor como simples bonecos, sem dificuldade. Questionou-se como tão poucos homens conseguiram invadir sua fortaleza com tamanha facilidade. Sem saber, seus próprios guardas, povo do seu sangue, já estava dominado pela Palavra. Ela pegara carona com o vento e espalhara-se por todo o reino.

     O caos reinava dentro e fora do castelo.  Nos pátios inferiores, uma procissão de pessoas com roupas brancas agiam como se limpassem o local. Seu filho, sua rainha e seus amigos desapareceram. Ensandecido, Ror correu em direção a Eclédor, espada em punho…

 

– Então não foi mesmo um sonho. – Interrompe Ror com a tristeza estampada no rosto. Ali, sentados naquela caverna, Viuf observa o rosto de Ror, o Eterno. Por anos visitava sua estátua nas Ruínas do Rei à espera do seu retorno. Imaginava-o como um Deus entre os Homens cuja força não possuia limites. Muitas vezes duvidou do que diziam as profecias. Mas agora o Rei estava na sua frente, em carne e osso, com a vida pulsando em suas veias. Ali, em mais uma das centenas de cavernas de Rorámiac, o rei sentava-se como todos os outros homens; bebia sua água como todos os outros seres e a tristeza tirava-lhe o brilho dos olhos como o faz com todos. Seu rosto não carrega cicatrizes de batalha, mas os sulcos da pele cansada de um homem que carregou um peso gigantesco nas costas. Sua barba está para fazer e possui falhas, seu cabelo não é perfeito. Pergunta-se do que seria feito um Rei. O que tornava Ror tão especial, além de ser um homem que dormiu por duzentos anos?

Viuf faz todas essas perguntas em sua mente e lembra-se de Rorámiac. “Eterno como montanha.” Com um sopro de ânimo, o monge levanta-se e caminha até o fundo da caverna, entrando numa femda que Ror julgava ser impossível para uma pessoa passar. De lá, Viuf sai com um embrulho aproximadamente do seu tamanho. Carrega-o com dificuldade até Ror e diz:

– Talvez isso lhe devolva o ânimo e as forças.

Ror abre o embrulho: um cobertor velho, empoeirado e sem estampas. Em seu interior encontra-se Cvenarim, a Espada do Trono. Ele a segura com ambas as mãos. Ao sentir seu peso um calor percorre seus braços, espalhando-se por todo o corpo. Pela primeira vez desde que despertara, sentia-se verdadeiramente vivo. O brilho do metal o lembra do brilho dos olhos da sua Rainha e do seu filho. Assim, sentindo-se vivo novamente, diz:

– Obrigado, Viuf. Prepare-se, pois temos um reino para reconquistar.

Crônicas de Ror: O Silêncio de Ror e O Despertar de Ror

Olá, pessoal.

Esse é o primeiro post contando a história de Ror, um dos meus personagens mais novos. Tive a ideia pra esses textos há poucos dias e escrevi as duas primeiras partes, O Silêncio de Ror e O Despertar de Ror. Gostaria de receber o feedback de vocês sobre a história e se querem que eu faça mais atualizações continuando essa história.

Para receber as atualizações por e-mail, basta seguir este blog deixando seu e-mail no canto inferior direito, no botão “seguir” ou acompanhar minhas atualizações no facebook. Enfim, chega de conversa! Espero que gostem. Até o próximo post!

O Silêncio de Ror

Ele entrou na igreja com o pé direito. Nunca antes na história da cidade de Blesian alguém ousara deixar a marca das suas botas na porta da Casa Sagrada. Assustados com o estrondo, os fiéis cessaram suas rezas e olharam diretamente para a porta. A imagem que presenciaram calou até mesmo o mais devoto dos devotos: um homem com seus dois metros de altura, prostrado à porta da igreja portando somente suas vestes e uma gigantesca espada de duas mãos. Como plano de fundo, uma Blesian coberta de neve.

Ror ergueu a espada sobre sua cabeça e abateu o primeiro fiel. Ela cortava vento, carne e sonhos e, naquele momento, cortou o silêncio daquela pequena igreja. Em poucos segundos a ordem transformou-se em caos e homens e mulheres corriam debatendo-se pelo salão principal, tentando encontrar um meio de fugir da morte. A cada grito de horror, Ror irritava-se mais e mais e, quanto mais se irritava, mais rápido desejava acabar com aquilo tudo. Brandia sua espada com fúria, tentando trazer de volta o silêncio que lhe fora roubado por aquela pequena cidade.

Ao lado oposto do salão principal, havia somente uma figura distoante de toda aquela situação: um padre em pé, parado, com um ar sereno e confiante no rosto. Ror não entendia aquilo. Isso simplesmente não fazia sentido. E, mais breve que um suspiro, sua atenção, seu foco e seu objetivo de vida viraram-se contra aquele homem. Ele devia matá-lo e nada mais importava no mundo dos homens. Apesar do frio, o suor escorria pelo seu rosto. Ele corria como se esta fosse a última corrida de sua vida, o último esforço, os últimos metros… a última morte.

A menos de um metro de distância do padre, Ror ergue sua espada sobre sua cabeça e, antes que possa desferir o golpe fatal, o padre, ainda com um leve sorriso no rosto, toca sua testa com uma das mãos. Ao contato da pele, Ror percebe-se envolto pelo silêncio que tanto almejava. Um silêncio profundo; profundo como as profundezas do oceano, como a infinitude da noite. Sentiu-se a montanha mais alta cujo topo reserva-se somente ao vislumbre das estrelas. Seu silêncio durou dias, meses, anos, séculos, milênios… Não existia frio, não existia padre, não existia Ror. E assim o tempo deixou de ser tempo e o nada transformou-se em tudo.

O Despertar de Ror

Um calor toma-lhe a face. A escuridão começa a se desfazer numa luz fraca no horizonte. Pouco a pouco seus sentidos voltam a tona. O barulho dos pássaros, o mármore frio sob seus pés, a brisa na face… cada experiência lhe é nova como a um recém nascido. O calor espalha-se pelo seu corpo, centímetro por centímetro. Por alguns minutos Ror medita consciente, degustando o prazer da respiração.

Após acostumar-se com a ideia dos segundos e minutos, Ror abre os olhos. Sentado em seu trono a memória lhe atinge como um raio. “Eu sou Rei!”, diz em voz baixa e trêmula. “Ou pelo menos era!”.

Ao olhar o salão em ruínas, lembra-se confuso do que ocorrera antes de cair no sono:  seu filho, Tor, completara dezoito primaveras e hoje seria um dia de festividades em todo o reino. Lembra-se dos casais dançando no salão principal, lembra-se dos poemas criados para a ocasião e de como os poetas recitavam as suas conquistas, repletas de hipérboles, metáforas e todos os temperos das bajulações clássicas. Lembra-se do brilho dos adornos dourados das colunas, dos desenhos no mármore negro e de toda a beleza do seu lar. Mas agora, não há sinal de festas, de ouro, de glória; não há pássaros azuis entrando e saindo pelas janelas redondas; não há músicas nem poemas. Não há flores. Tudo que vê é um salão em ruínas: metade do salão encontra-se sem teto. A maioria das colunas está destruída, os blocos de mármore negro encontram-se rachados e as estátuas de seus ancestrais encontram-se sujas e desmembradas. O mato invade o salão. Ao que parece, o tempo devorou cada centímetro do lugar e, ao se dar conta disso, Ror sente um cala-frio na espinha: o que aconteceu com as pessoas? E meu filho? E por que continuo aqui? Teria o tempo devorado também seus entes queridos?

– Tor! – grita. Em resposta, a voz grave de um rei vigoroso. Desesperado, Ror corre pelo salão em direção à saida leste.

A varanda em forma de arco exibia uma Blesian deserta e em ruínas. No horizonte o Sol se punha, deixando um degradê vermelho e laranja no céu. Sentado ali, ao ar livre, de pernas cruzadas, encontrava-se o que lhe parecia ser um monge. Ror, irritado e ao mesmo tempo feliz por encontrar alguém, contorna o homem para olhá-lo de frente. Para sua surpresa, o monge era apenas um garoto com seus treze ou quatorze anos. De olhos fechados ele parecia tão frágil, como se pudesse ser esmagado com apenas uma das mãos. Então, Ror segura-o pelo pelo pescoço e acorda-o de sua meditação.

– Quem é você? O que está fazendo aqui? O que aconteceu?

– So-rrrr-solte-me… – disse o monge entre dentes, sufocado pela mão de Ror. Ele então é largado a alguns centímetros do chão e cai torto.

– Anda, pirralho. Conte-me tudo! O que aconteceu?

Após o susto passar, o monge dá um suspiro de alívio e diz:

– Até que enfim você despertou!


Leia o Capítulo 3: Rorámiac

Resenha: O Aprendiz – Joseph Delaney

O Aprendiz, primeiro livro da séria As Aventuras do Caça-feitiço

O Aprendiz, primeiro livro da séria As Aventuras do Caça-feitiço

Thomas Ward é um sétimo filho de um sétimo filho e, portanto, consegue ver, ouvir e sentir o que a maioria das pessoas não consegue: o som de um ogro aproximando-se na escuridão, a sombra de pessoas que sofreram antes de morrer, a presença de uma feiticeira cruel e muito mais. Seus medos lhe assombram desde pequeno, mas ele não é o único.

Com treze anos de idade e morando na fazenda de seus pais, Tom se vê como o único dos sete filhos que ainda não possui um ofício, uma profissão para tocar sua própria vida. Seu irmão mais velho, Jack, ficará encarregado da fazenda e seu pai já arrumara, como de costume, profissões para o restante de seus irmãos. Portanto sua mãe, uma mulher de qualidades invejáveis – talvez a parteira mais competente do Condado, uma cozinheira “de mão cheia” e com sabedoria e coragem que inspira respeito e admiração de toda a família -, explica a Tom que ele, por ser o sétimo filho de um sétimo filho, deveria se tornar um aprendiz de Caça-feitiços.

O Caça-feitiços é a pessoa responsável por conter o mal e proteger as famílias e as cidades de todo o tipo de criaturas das trevas. Portanto, esta é uma profissão muito perigosa que requer muito estudo, esforço e dedicação.

“O Aprendiz” é o primeiro livro dá série “As Aventuras do Caça-Feitiço” (do título original “The spook’s curse”), do escritor Joseph Delaney e lançado no Brasil pela editora “Bertrand Brasil” – que também traduz autores consagrados como Nora Roberts e Scott Spencer.  Nele o narrador conta as aventuras de Tom como aprendiz do Caça-feitiços do Condado. A história é narrada pelo próprio Tom e conta todos os problemas, medos, testes e privações que passa nos seus primeiros meses como aprendiz.

Delaney conta a história de forma magistral, num ritmo muito bem cadenciado, mesclando fantasia e horror de uma forma não apelativa. Consegue prender o leitor do início ao fim. De Tom e do Caça-feitiços a personagens como Alice, Jack e Ellie, a história é muito bem equilibrada em personagem, enredo e mistério. Após ler a primeira página, você não consegue parar até chegar à última e, quando o faz, sente aquela satisfação de ter lido um bom livro.

No Brasil – até a data deste post –foram lançados sete livros da série. Portanto, estou ansioso para ler o segundo e descobrir qual será o destino de Thomas Ward.

Site oficial: http://www.spooksbooks.com

Domingo Macabro Nº 1 – Um Detalhe Inconveniente

Olá, pessoal. Tudo bem? Espero que sim…

Trago pra vocês o primeiro de uma série de posts que apelido de “Domingo Macabro”, onde postarei diversos contos de terror para vocês. Eu gosto muito de escrever contos de terror pois as ideias sempre surgem de situações inesperadas. Este, particularmente, surgiu num dia em que eu estava indo trabalhar e, no ônibus, sentei ao lado de uma mulher que carregava no colo um garoto bem pequeno e franzino. Ela me olhava de um jeito assustado, com medo, como se eu fosse agarrar seu filho pelos braços e sair correndo por aí! Então, comecei a pensar num personagem de uma mãe assustada e que tem pânico e… enfim, espero que gostem do conto e, se for o caso, acompanhem os próximos posts.  Um grande abraço e uma boa leitura!

***

É engraçado como simples detalhes são capazes de travar nossas pernas, acelerar nosso coração e fazer com que suemos frio. Naquela noite de domingo, Isabela acabava de voltar de viagem com seu marido Vinicius. Eles haviam passado o final de semana num chalé em Penedo, comemorando seus dez anos de casamento e apreciando a ótima combinação entre vinho, frio, montanha e fondue. Seu filho, Carlos, pedira para ficar em casa. “Eu nunca fico sozinho e nunca pedi para ficar. Essa é a primeira vez que peço!”, resmungou ele. E com razão! Sendo assim, após conversar com seu marido sobre o assunto, Isabela decide que não havia problema nenhum em aprovar pois, afinal, seu filho já estava bem grandinho para cuidar de si mesmo por um final de semana. Assim, todos ficariam felizes e satisfeitos.

Vinicius havia lhe deixado na porta de casa, dizendo que precisava encontrar seu amigo Henrique, do clube de xadrez, para lhe dar um abraço e os parabéns pelo aniversário de trinta anos. Afinal, não é todo dia que fazemos trinta anos, concorda?  Ela não precisaria se preocupar com as malas pois Carlos, como sempre, ajudaria-lhe a tirar tudo do carro.

Após seu marido virar a esquina, Isabela pega suas chaves e dirige-se até a porta de casa. Mas, sequer houve necessidade de usá-las: ao tentar encaixá-la na fechadura, percebe que a porta está entreaberta. “Mas que droga! Já falei mais de mil vezes pra esse garoto trancar a porta e ele a deixa assim, escancarada? Ah, mas ele vai ouvir poucas e boas!”, pensou, irritada.

Ao abrir a porta, a primeira coisa que Isabela percebe  é uma grande poça de vômito sobre o carpete da sala. Ela poderia pensar nas festinhas adolescentes, no seu filho passando mal por ter comido alguma porcaria comprada na esquina ou em qualquer outra coisa. Mas nada disso passa pela sua cabeça. Ela sequer consegue pensar! Sem saber o porquê, vê-se paralisada sob o arco da entrada, com o coração acelerado e com um forte enjoo. Além disso, aquela visão fazia com que Isabela sentisse um calafrio que lhe arrepiava da cabeça aos pés.

Após alguns segundos de paralisia, Isabela recobra os sentidos e começa a processar tudo à sua volta. Alguma coisa estava errada, muito errada: a porta aberta, a poça de vômito, as luzes apagadas e o silêncio profundo. Tudo que conseguia ouvir era o som do vento cruzando a casa pelas janelas abertas. Toda aquela escuridão e frio lhe deixavam com medo. Sendo assim, a primeira coisa que fez ao entrar foi acender as luzes e fechar a porta.

“Carlos? Cheguei!”, tentou gritar, mas tudo que saiu de sua boca foi um som rouco e abafado. Esperou por mais alguns segundos, mas não obteve respostas. “Ou ele está em seu quarto, ou não está em casa!”  pensou e, lentamente, caminhou em direção ao quarto mais próximo. Assim como a porta principal que dá para a sala, a do quarto de Carlos encontra-se aberta. Porém, com uma pequena diferença: a luz está acesa e, de dentro, um som de uma música lenta e repetitiva pode ser claramente ouvido. Sem pensar duas vezes, corre até a porta e a abre rápida e abruptamente.

No centro do quarto encontra-se Carlos, sentado sobre um pequeno banco de madeira. Sua cabeça pendia para frente, com seu queixo encostado no peito. Seus olhos estavam vendados com um pano que em algum momento do passado era branco, mas que agora possuía tons de vermelho. Havia sangue espalhado por todo o quarto: mãos nas paredes, rastros no chão e uma grande mancha sobre o tapete abaixo de Carlos.

“Não, isso não pode estar acontecendo! Estou em um pesadelo!”. Sem pensar em mais nada, Isabela corre até seu filho e remove a venda de seus olhos. Sua cabeça, pendendo mole e sem vida, lembrava-lhe um boneco de pano. Ao levantá-la, Isabela percebe que, no lugar onde ficavam os olhos, havia simplesmente dois grandes buracos vermelhos.  Suas mãos congelaram e seu grito desesperado exalava todo o seu pavor. Tudo o que conseguia ouvir era a batida do seu coração acelerado. À sua volta, tudo ficava cada vez mais escuro.  Após o que lhe pareceu uma eternidade, a música que antes tocava lenta e repetitiva transformara-se numa gargalhada seca e lúgubre.

No lado oposto do quarto, atrás de Carlos, encontrava-se um armário de madeira. Sobre ele, um rádio onde seu filho costumava ouvir suas músicas favoritas e um grande espelho com a imagem refletida de um corpo inerte sobre um banquinho, uma mulher choramingando assustada e, atrás desta, um homem com um martelo na mão, rindo desenfreadamente.

Desesperada, Isabela corre e se tranca no banheiro do quarto. Apoiada na porta, Isabela tenta ouvir o que se passa lá fora e, após alguns segundos de silêncio, escuta o som oco da bota grossa sobre a madeira vindo em sua direção. Ao sentir o crescente cheiro podre vindo de fora, Isabela começa a passar mal. Com uma das mãos, alcança o celular no bolso da calça e tenta usar a discagem rápida para ligar pro seu marido. Nenhum sinal da operadora. Logo em seguida a forte pancada na porta faz com que Isabela se assuste e derrube o celular no chão. Pancada atrás de pancada, buracos surgem na frágil porta. Sem saber mais o que fazer, Isabela cata as partes do celular que se espalharam pelo chão, corre para o canto do banheiro e, sob o chuveiro, agachada, tenta remontá-lo o mais rápido possível. Pressiona o botão de power e aguarda nervosa enquanto a tela de inicialização exibe cores debochadas: segundos preciosos jogados pelo ralo. A rajada de ar vinda da porta, agora aberta, aperta-lhe o coração como garras frias e afiadas. Antes mesmo que pudesse se virar, Isabela sente uma forte pancada na cabeça e tudo fica escuro como uma noite sem estrelas.

– Amor? Você está bem? – Isabela abre os olhos ao custo de fortes dores. Sua cabeça lateja e uma convulsão de cores toma-lhe os sentidos. Após alguns segundos de adaptação à luz ambiente, Isabela não podia ver imagem mais reconfortante e surpreendente: em pé ao seu lado na cama, encontra-se Vinicius e Carlos, ambos com um grande sorriso no rosto. Ela tentou se segurar – na verdade, em toda sua vida, Isabela sempre se segurou e sempre quis passar aquela imagem de mulher forte e guerreira -, mas não conseguiu: as lágrimas saiam sem pedir permissão e tudo que ela conseguia fazer era chorar e abraçar os dois grandes amores da sua vida.

– Mãe, a senhora me perdoa?

– Te perdoar? – e, assim, a lembrança dos acontecimentos lhe atinge como um raio.

Ao sair do carro Isabela pega suas chaves e dirige-se à porta. Ao tentar encaixá-la na fechadura, percebe que a porta está entreaberta. O medo faz com que simples detalhes como este transformem, de um minuto ao outro, todo nosso estado de espírito. A alegria e a saudade tornaram-se uma raiva apreensiva. Uma raiva branda, daquelas amenizadas pela esperança de que, apesar do recado não ter sido seguido, tudo está bem. Irritada – porém temendo o pior – Isabela tenta gritar por seu filho, mas tudo que sai da sua boca é um som rouco e abafado. Percebendo uma grande mancha sobre o carpete e a luz do quarto do seu filho acesa, Isabela tenta correr mas, ao dar o primeiro passo, escorrega na pequena poça de suco de laranja no chão e bate fortemente com a nuca no assoalho liso e frio.

– Sim, mãe. Eu sujei a casa e não limpei e a senhora quase morreu.

Inesperadamente, Isabela solta uma alta e breve gargalhada – as dores ainda lhe podavam as ações.

– Tudo bem, filho, tudo bem. Eu te perdoo, tá? Tudo poderia ter sido bem pior…

E, ignorando as dores e o cansaço, dedica ao seu filho o abraço mais gostoso já dado em sua vida.

A Casa dos Desejos

     Andando sozinho numa rua deserta. Nada nem ninguém para me chamar a atenção. Pelo menos essa é a impressão que tive e que tenho sempre que estou andando e olhando para o nada, pensando na vida ou na morte. Mas naquela quarta-feira aconteceu algo diferente. Lembro-me que o dia estava nublado, as nuvens projetando para o resto do mundo o meu estado de espírito: um lúgubre e tenebroso inverno de pessimismos e descrenças que acompanha o coração daqueles que vivem uma decepção. O tempo se arrastava lentamente. Não demorou muito, trovões inundaram as ruas com seus sons agourentos e um ar carregado de cheiro de chuva invadiu minhas entranhas. Até que desisti e parei por alguns segundos. O mundo pedia para que eu parasse e me entregasse. E eu obedeci! Foi ai que avistei, do outro lado da rua, num muro cinza e maltratado, um letreiro torto e fosco cujas palavras me chamaram a atenção. Sentia o gosto do convite e fiquei com água na boca. Um convite para o novo, para aquilo que eu realmente precisava.

A Casa dos Desejos

O casebre me atraiu como um ímã e não pude conter minhas pernas. Em poucos segundos já estava subindo os degraus da escada interna. A madeira rangia enquanto eu subia e seu som me trazia bons presságios. Presságios de mudança.”, pensei. A escada dava para um corredor antigo e o que antes era um cheiro de chuva transformou-se em cheiro de mofo. Em ambos os lados os papéis de parede estavam manchados com marcas de infiltração e, em alguns pontos, rasgados. Apesar da aparência peculiar, senti-me acolhido e protegido sob o teto daquela velha senhora. No final do corredor, em contraste com o restante do ambiente, uma grande porta de madeira, envernizada e muito bem conservada , encontrava-se semiaberta. Com os nós dos dedos, dou algumas batidas para anunciar a minha presença. Nenhuma resposta. Mas senti que não poderia parar. Não devo parar! – pensei. Naquele momento a curiosidade já havia tomado conta de mim.

Ao abrir a porta, deparei-me com um cômodo pouco iluminado, a mercê de algumas poucas velas espalhadas sobre imponentes móveis de madeira. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma pequena mesa redonda que se encontrava no centro da sala, com duas cadeiras dispostas de modo que seus ocupantes ficassem um de frente para o outro. No centro dela, somente um baralho. Após dar alguns passos em direção à mesa, uma mulher surge através de uma porta do lado oposto da sala. A sua presença me paralisou. Não foi a beleza do seu corpo adornado por um vestido preto e delicado, seu cabelo longo emoldurando um rosto branco que carregava lábios pintados por um batom vermelho convidativo, nem o modo como ela segurava as duas taças de vinho tinto que me paralisaram, mas sim a sua presença e o seu olhar.

-Sente-se, rapaz! Sua aparência me faz pensar que você precisa descansar, conversar e ouvir algumas palavras. Gosta de vinho?

Fiquei calado pelo que me pareceram horas. A sua voz me tranquilizou de uma maneira que jamais esquecerei. Sentia-me como se a conhecesse a anos, como se sua voz despertasse em mim a esperança e o calor que há muito haviam me abandonado. Normalmente tal convite me causaria um sentimento de  desconfiança que provavelmente me faria recusar o convite, mas naquele momento a única coisa que senti foi uma vontade enorme de sentar naquela mesa, tomar aquele vinho e ouvir o que quer que ela tivesse para me contar.

-Pensei que você não fosse aparecer. Seria uma pena. Um desperdício, na verdade. – Surpreso e um tanto quanto confuso, demorei para conseguir dizer as primeiras palavras.

-Você estava me esperando? Como? Por que? E quem é você? – Com um breve sorriso e um balançar de cabeça ela me fita nos olhos.

-Como sou mal educada! É claro que você não tinha como saber. Claro! Prazer, meu nome é Vanessa. – disse, levando a mão direita à frente, num gesto de cumprimento.

-E eu me chamo Fernando. Mas pode me chamar de Nando. – respondi, apertando-lhe a mão. – O que você quis dizer com desperdício?

-Nando, Nando. Você entenderá isso e muitas outras coisas em pouco tempo. Não se preocupe, estou aqui para isso! E, em breve, você também será capaz de perceber as conseqüências de tudo que lhe disse e dei. – suas palavras só me causavam mais dúvida e confusão. Desviei meu olhar para o resto do cômodo, mas ver uma sala limpa e organizada não me ajudava muito a esclarecer as coisas.

-Posso fazer mais uma pergunta? – disse, fugindo de meus devaneios.

-Claro querido. Afinal, você é meu hóspede! Que anfitriã seria eu se lhe negasse o direito a perguntas?

-Hóspede? – respondi, mais alto e rude do que o pretendido. – Na verdade, não pretendo ficar aqui por muito tempo. Já estou de saída. Nem sei o que estou fazendo aqui.

-Mas eu sei. – colocando sua mão em meu rosto, Vanessa me dirigiu um olhar penetrante e sério. O toque gélido de sua mão fez com que eu me arrepiasse da cabeça aos pés. Ao aproximar o seu rosto do meu com um sorriso acolhedor, pude sentir o cheiro de seu cabelo e perceber melhor a maciez de sua mão. Por mais que uma voz dentro de mim me dissesse que aquilo tudo estava errado e que deveria partir, eu não era capaz de lutar. E também não queria fazê-lo.

-Durante o tempo que você permanecer em minha casa eu lhe chamarei de hóspede. – suas palavras puseram um ponto final na questão. Seu tom de voz era firme, austero, uma antítese clara à sua feição.

– Pois bem, faça a sua pergunta.

-Por que “casa dos desejos”? – as palavras saíram com timidez.

-Porque aqui você entrará em contato com os seus desejos mais íntimos e profundos, mesmo aqueles que você não conhece. No seu caso eu sei o que você deseja e o que precisa. E para conseguir o que deseja, você precisa de três coisas. A primeira delas é uma carta. Já a segunda e a terceira dependem do resultado de sua escolha. Portanto, escolha uma e coloque-a desvirada sobre a mesa. – após falar isso, Vanessa me indicou o monte ao centro da mesa. Escolho uma carta aleatoriamente. Nela, somente uma palavra escrita com letras garrafais.

VERDADE

-Uma carta interessante! Você precisa da verdade. Esta, então, é a segunda coisa. A verdade é bastante curiosa, não acha? Ela pode representar várias coisas. Tudo depende do como e do quando. Ela pode, por exemplo, revelar que você é um assassino no momento em que você encontra a sua mulher na cama com outro, e isso é o como – Como a verdade lhe foi apresentada.

– Imagine também que eu poderia ter-lhe apresentado a verdade há alguns dias atrás, antes de você ter matado a sua esposa, mas decidi fazê-lo somente agora. Isso faz parte do quando. Perceba, Nando, que a verdade é uma faca de dois gumes, e precisamos aprender a lidar com ela. Nesse mundo, só é bem sucedido quem sabe utilizá-la corretamente. Estou aqui somente para lhe apresentar a verdade. O resto, o amargo caminho da descoberta e do aprendizado, você terá que percorrer sozinho.

Suas palavras me atingiram como um raio. Não esperava que ela soubesse algo sobre meus erros, meus pecados… Sobre a minha verdade! Ela tocara em uma ferida ainda recente, não cicatrizada. Eu matara a minha mulher e seu amante a sangue frio. Não fui capaz de conter o ódio, a raiva, o instinto e este segredo corroía minha alma e sanidade dia após dia. Não fui capaz de conter minhas lágrimas. Lembro-me de ter começado a chorar desesperadamente, como se estivesse prestes a pagar por todos os meus pecados e o fato de estar arrependido não me livraria do inferno.

– E agora? Qual a terceira “coisa” que eu preciso? Você… irá me matar?

– Como você é ingênuo, Fernando. Não é da morte que você precisa.

– Então…

– Tempo! Você precisa de tempo e eu vou lhe dar todo o tempo que você sempre desejou. Agora beba o seu vinho.

Esquecera-me completamente do vinho. A taça continuava intacta sobre a mesa. Ela não estava completa, de modo que pude tragar todo o seu conteúdo com um só gole. Foi nesse exato momento que Vanessa se levantou. Ela contornou a mesa lentamente, cada passo calculado fria e metodicamente. Minha visão estava embaçada e distorcida. Não era mais capaz de enxergar o seu rosto belo e tentador como outrora. Tudo o que via era uma face cruel, deformada e vil. Quanto mais ela se aproximava mais medo eu sentia. Então essa é a face da verdade? Lembro-me claramente de ter tentado correr, mas meu corpo não me respondia. Tudo que pude fazer foi me entregar e esperar, esperar…

Lembro-me vagamente da primeira vez que acordei. Sentia uma dor de cabeça absurda e uma enorme… sede. Não consigo me lembrar dos acontecimentos que se seguiram, mas não posso esquecer de quando acordei de verdade. Estava em minha casa, no meu quarto e tudo estava repleto de sangue. Sangue nas paredes, no teto, na cama e no meu corpo. Mas não sentia mais medo, nem sede, nem dor de cabeça. Eu estava aliviado. Abri a porta e segui para a sala. Vazia, exceto talvez por uma mesa e um baralho. Lembrei-me de Vanessa e procurei em vão por toda a casa. Olhei para as cartas sobre a mesa e, pela segunda vez, fui tomado pela curiosidade. Peguei o baralho e olhei carta por carta. Para a minha surpresa, todas elas continham o mesmo símbolo, a mesma letra, a mesma mensagem. Verdade. Foi aí que entendi a cruel sutileza de seu jogo.

A cada dia que passa, vejo as minhas ideias sobre passado, presente e futuro se diluírem e misturarem, tornando-se uma só coisa a qual dou o nome de tempo. Hoje caminho solitário pelas ruas, esperando por uma morte que eu sei que nunca virá. E a verdade? Bem… quem sabe, um dia, eu volte a encontrá-la?

Confusão

Sou apenas mais um.
Mais um em meio a sua floresta de dedos.
Julguei-me monstruoso por excesso,
mas pequei pela regularidade.

Sou a confusão daquilo que fui
com tudo aquilo que foram,
e toda minha possibilidade de ser
resumiu-se ao filtro dos seus preconceitos.

Fui apenas mais um.
O resultado da poda das qualidades
pela inexorável tesoura do tempo,

Farelo dos defeitos escolhidos
pela peneira dos seus medos;
confusão das suas equivocadas interpretações.

Um momento, e nada mais!

São vinte e três horas. Abro a janela e, de todas as estrelas que a convenção divina convidaria aos céus, encontro justamente aquela que não deveria estar ali.

Espero a luz amena de um céu de estrelas e o abraço suave e doce da brisa noturna, acompanhado do olhar de uma lua tímida;

Encontro a luz de um sol irrequieto e o sorriso – efeito da minha surpresa! – traduzido em calor.

Nenhum relógio do mundo saberia precisar o tempo que fiquei ali, naquela janela sem motivos ou pretensões, entregue a um acaso irracional.

Pelo que me pareceram dias fitei-o incrédulo com o medo sutil do ignorante.

Mas soube aguardar. Esperei até que a minha pele queimasse por completo. Esperei até que minha carne se desmanchasse, pois eu queria entender. E o que antes era medo, transformou-se em um querer-sentir, em um viver jamais vivido; transformou-se no grito que nunca foi gritado, na dor que nunca foi sentida no horror indizível e no prazer jamais proporcionado.

O nada metamorfoseou-se em tudo.
E tudo que entendi é que nada deve ser entendido.

Assim, quando não existiam mais olhos para olhar, pude enxergar o brilho da lua que ali me acolhia.

No céu, dentre tantas estrelas, somente uma lua.
Olho para meus braços, para meu corpo;
olho para o relógio:
São vinte e três horas

Estando ambos aliviados – lua e eu – fecho a janela e deito-me a sonhar todos os sonhos do mundo.

Como a Morte se Infiltra

Certo dia, não se levanta
porque quer demorar na cama.

No outro dia ele diz por que:
é porque lhe dói algum pé.

No outro dia o que dói é a perna,
E nem pode apoiar-se nela.

Dia a dia lhe cresce um não,
um enrodilhar-se de cão.

Dia a dia ele aprende o jeito
em que menos lhe pesa o leito.

Um dia faz fechar as janelas:
dói-lhe o dia lá fora delas.

Há um dia em que não se levanta:
deixa-o para a outra semana,

Outra semana sempre adiada,
que ele não vê por que apressá-la.

Um dia passou vinte e quatro horas
incurioso do que é de fora.

Outro dia já não distinguiu
noite e dia, tudo é vazio.

Um dia, pensou: respirar,
eis um esforço que se evitar.

Quem deixou-o, a respiração ?
Muda de cama. Eis seu caixão

João Cabral de Melo Neto

 

TRECHO – Para além do Bem e do Mal

São precisos muitos casos de sorte e muitas coisas incalculáveis para que um homem superior, em quem dorme a solução de um problema, chegue ainda a tempo para agir – “à explosão”, como se poderia dizer. Em geral, tal não acontece, e em todos os recantos da Terra há os que esperam, que mal sabem em que sentido esperam, mas menos ainda sabem que esperam em vão. Por vezes, também, chega tarde demais o toque de alvorada, aquele acaso que dá a “licença” para agir – acontece quando a melhor juventude e força de agir estão gastas pelo estar-se sentado; e quantos não descobriram, com susto, ao levantarem-se “sobressaltados”, que tinham os membros dormentes e o espírito já pesado demais! “É tarde demais”, disse, tornado descrente de si próprio e, agora, inútil para sempre. Será que, no reino do génio, o “Rafael sem mãos”, entendida a palavra no sentido mais lato, não é talvez a exceção, mas a regra? O génio talvez não seja tão raro: mas são-no as quinhentas mãos que são precisas para tiranizar o καιρós, o “tempo oportuno”, para agarrar o acaso pelos cabelos!

Nietzsche

***

Compartilho este texto que me foi apresentado num momento muito oportuno.

     As palavras podem nos tocar profundamente. Elas podem alcançar rincões inimagináveis e revelar aquilo que nunca imaginamos existir. Mas isso não acontece a todo o tempo, com quaisquer palavras. Para que isso possa se dar, é necessário que o significado por detrás do texto – interpretação! – entre em ressonância com um estado Humano, com o status quo dos próprios sentimentos.

Isso pode acontecer com alguns, mas certamente não acontecerá com todos e, nos primeiros, tal fenômeno dá-se de maneira íntima, singular, pois não se pode desfrutar o sentimento de outrem, somente o próprio; quando tal ressonância acontece, tudo é maximizado e, o que vivia escondido naquele interior inabitável, floresce e cria raízes tão profundas, de tal modo que não podem vir a ser esquecidas.