CRÔNICAS DE ROR: RORÁMIAC

Olá, pessoal! Este post dá sequência aos dois primeiros capítulos das Crônicas de Ror (“O Silêncio de Ror” e “O Despertar de Ror”). Caso ainda não tenha lido as duas primeiras partes, clique aqui.

Sem mais delongas, segue abaixo o terceiro capítulo. Espero que gostem. Caso ainda não sigam meu blog, clique no botão seguir no canto inferior direito da sua tela e cadastre seu e-mail. Também não se esqueça de avaliar e/ou comentar o que acha sobre a história. Até o próximo post e boa leitura!

Obs.: Se vocês estiverem curtindo, providenciarei para que a história esteja disponível também em ebook para que possa ler todos os capítulos no seu tablet, celular e afins. Portanto, contacte-me ou deixe um comentário.


 

CAPÍTULO 3 – RORÁMIAC

     Ror senta-se contemplativo ao lado do monge naquele patamar em ruínas. As copas das árvores colorem a paisagem de um vermelho outonal. À sua frente, árvores milenares ocultam o chão, como se tivessem sido plantadas estrategicamente para proteger o solo dos raios solares. Erguendo-se em meio a elas encontra-se Rorámiac, a montanha mais alta do seu reino. A ela foi dada esse nome em homenagem a Ror e, na sua lingua, significa “Ror, eterno como montanha”, representando todo o esplendor de outrora. “Eterno como montanha… Foram-se todos e me restaram somente nomes. Um homem não vive de nomes. Somente um tolo acredita nisso”, pensa calado. Após alguns segundos, Ror rompe o silêncio.

– Afinal, quem é você?

– Aqui não é mais um lugar seguro. Venha comigo. Vou te levar ao meu abrigo. – diz o monge.

– Como saber que posso confiar em você? – pergunta Ror, desconfiado.

– Pensa em outra alternativa, vossa majestade?

Por mais que o percurso não fosse tão longo, Ror não consegue se lembrar de nada que vê. Pedras gigantescas barram-lhe o caminho, desviando o percurso das águas de rios que não existiam na sua época. Procura ao seu redor algum resquício das antigas estradas de pedra que conectavam sua fortaleza às cidadelas mais próximas, abrindo caminho entre as árvores.  Porém, tudo que vê são matos, fungos… Um ambiente jamais tocado pelo homem – ou assim lhe parece.

Eles então começam a subir Rorámiac por um caminho não tão íngreme, porém sinuoso. Fazem todo o trajeto calados, como se tivessem medo de assustar as criaturas da floresta. Após alguns minutos de caminhada, chegam ao esconderijo: uma pequena caverna sem muitos pertences.

– Você mora aqui? – pergunta Ror, incrédulo.

– Não. Aqui é somente o meu refúgio para meditações. Venho aqui sempre que posso.

–  Então… onde você mora? E, mais uma vez: quem é você? Explique-me o que aconteceu. Sinto como se estivesse num sonho… Não, num pesadelo! Sim, num pesadelo horrível no qual minha família foi tomada de mim, meus salões não passam de lar para ratos imundos e depósito de merda para pombos.

– Não se preocupe. Agora podemos conversar com calma. Meu nome é Viuf e sou monge do templo de Rorámiac. Nosso templo situa-se no topo da montanha. Ele fica em um lugar tão remoto pois assim temos vantagem estratégica. Ninguém conhece a velha montanha tão bem como nós. No momento certo eu te levarei até lá. Por ora, você precisa saber o que aconteceu. Pois bem…

     Há dois séculos atrás, um homem chamado Eclédor…

– Não, não. Espera… dois séculos atrás? Você só pode estar maluco… – Ror interrompe.

– Calma! O mundo não é como imagina que seja, por mais que acredite nisso com seu corpo e sua alma. Voltando…

 

     Há dois séculos atrás, um homem chamado Eclédor chegou ao reino com sua família. Alojou-se em uma das cidades do reino e tentou, de todas as maneiras, contactá-lo. Colocou seu nome na “lista do Rei” e aguardou pacientemente até que Ror, o Eterno, lhe atendesse. Quando esse momento chegou, contou-lhe que era um enviado dos Deuses para salvar Tearor da destruição. Salvar Ror, o Eterno, de ser esquecido. Impedir que sua memória fosse diluída nos mares do tempo.

     Ror, obviamente, não acreditou. “E quem ousaria me destruir?”, perguntou. E Eclédor respondeu: – “O seu próprio povo. Tudo que é eterno sofre mudanças. Seu reino degradar-se-á de dentro para fora a partir da Palavra. Uma palavra jamais ouvida por você e seu povo. Uma palavra que aquecerá o coração frio de cada marido, cada esposa, cada criança. E o golpe final será dado pela própria majestade. A palavra deixará de ser somente um tesouro, uma riqueza, e passará a ser alimento. Quando isso acontecer, seu reinado terá chegado ao fim e você sucumbirá. A menos que você a utilize a seu favor e…”

     Enfurecido, o Rei ordena que tirem-no da sua frente. “Se você voltar a desperdiçar meu tempo com palavras inúteis, ordenarei que arranquem-lhe a cabeça. Por ora, deixarei que a mantenha, pois sou um bom Rei. Portanto, nunca mais cometa tolices na minha presença ou você e seu povo de-sei-lá-onde serão exterminados.”

     Os meses se passaram e Ror não se esqueceu daquele homem. Suas palavras consumiam-no por dentro, dia após dia. Elas não faziam sentido algum para o Rei. O que ele queria dizer por A Palavra? Ordenou que o vigiassem à procura de alguma pista. Seus homens descobriram que Eclédor reunia-se todas as noites com diversas pessoas. As reuniões começaram com um grupo pequeno de cinco ouvintes. Porém, com o passar dos dias, mais e mais pessoas juntavam-se ao grupo inicial. Ao final de alguns meses, dezenas de homens reuniam-se na praça principal da cidade que, naquela época, chamavam de Dacomir – a Pedra Eterna -, para ouvir suas palavras. Para Ror isso já estava indo longe demais. Eclédor alternava sua fala entre a lingua local e um idioma desconhecido, cantado.  Aquilo não poderia continuar, pensou o Rei.

     Assim, numa manhã de frio e neve, Ror cometeu o maior erro que já cometera em toda sua vida: tentar calar a Palavra com a força. Ror vencera a batalha, porém a guerra estava longe do fim. Eclédor não foi encontrado e por um longo tempo não se ouviu falar na Palavra.

     Com o intúito de demonstrar ao povo que a Palavra havia sido erradicada e que tudo estava bem – e também tentando retomar o prestígio do seu povo, mostrando a sua generosidade -, Ror preparou uma festa memorável para comemorar o décimo oitavo aniversário do seu herdeiro. Todos os grandes senhores de Tearor foram convidados. Tudo ocorria como o planejado, até que o inesperado aconteceu – e rapidamente. Eclédor, de alguma maneira, invadira o castelo do Rei e adentrara o salão principal. Pela primeira vez, Ror ergue a Espada do Trono contra um Homem. Derruba os lacaios de Eclédor como simples bonecos, sem dificuldade. Questionou-se como tão poucos homens conseguiram invadir sua fortaleza com tamanha facilidade. Sem saber, seus próprios guardas, povo do seu sangue, já estava dominado pela Palavra. Ela pegara carona com o vento e espalhara-se por todo o reino.

     O caos reinava dentro e fora do castelo.  Nos pátios inferiores, uma procissão de pessoas com roupas brancas agiam como se limpassem o local. Seu filho, sua rainha e seus amigos desapareceram. Ensandecido, Ror correu em direção a Eclédor, espada em punho…

 

– Então não foi mesmo um sonho. – Interrompe Ror com a tristeza estampada no rosto. Ali, sentados naquela caverna, Viuf observa o rosto de Ror, o Eterno. Por anos visitava sua estátua nas Ruínas do Rei à espera do seu retorno. Imaginava-o como um Deus entre os Homens cuja força não possuia limites. Muitas vezes duvidou do que diziam as profecias. Mas agora o Rei estava na sua frente, em carne e osso, com a vida pulsando em suas veias. Ali, em mais uma das centenas de cavernas de Rorámiac, o rei sentava-se como todos os outros homens; bebia sua água como todos os outros seres e a tristeza tirava-lhe o brilho dos olhos como o faz com todos. Seu rosto não carrega cicatrizes de batalha, mas os sulcos da pele cansada de um homem que carregou um peso gigantesco nas costas. Sua barba está para fazer e possui falhas, seu cabelo não é perfeito. Pergunta-se do que seria feito um Rei. O que tornava Ror tão especial, além de ser um homem que dormiu por duzentos anos?

Viuf faz todas essas perguntas em sua mente e lembra-se de Rorámiac. “Eterno como montanha.” Com um sopro de ânimo, o monge levanta-se e caminha até o fundo da caverna, entrando numa femda que Ror julgava ser impossível para uma pessoa passar. De lá, Viuf sai com um embrulho aproximadamente do seu tamanho. Carrega-o com dificuldade até Ror e diz:

– Talvez isso lhe devolva o ânimo e as forças.

Ror abre o embrulho: um cobertor velho, empoeirado e sem estampas. Em seu interior encontra-se Cvenarim, a Espada do Trono. Ele a segura com ambas as mãos. Ao sentir seu peso um calor percorre seus braços, espalhando-se por todo o corpo. Pela primeira vez desde que despertara, sentia-se verdadeiramente vivo. O brilho do metal o lembra do brilho dos olhos da sua Rainha e do seu filho. Assim, sentindo-se vivo novamente, diz:

– Obrigado, Viuf. Prepare-se, pois temos um reino para reconquistar.

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Crônicas de Ror: O Silêncio de Ror e O Despertar de Ror

Olá, pessoal.

Esse é o primeiro post contando a história de Ror, um dos meus personagens mais novos. Tive a ideia pra esses textos há poucos dias e escrevi as duas primeiras partes, O Silêncio de Ror e O Despertar de Ror. Gostaria de receber o feedback de vocês sobre a história e se querem que eu faça mais atualizações continuando essa história.

Para receber as atualizações por e-mail, basta seguir este blog deixando seu e-mail no canto inferior direito, no botão “seguir” ou acompanhar minhas atualizações no facebook. Enfim, chega de conversa! Espero que gostem. Até o próximo post!

O Silêncio de Ror

Ele entrou na igreja com o pé direito. Nunca antes na história da cidade de Blesian alguém ousara deixar a marca das suas botas na porta da Casa Sagrada. Assustados com o estrondo, os fiéis cessaram suas rezas e olharam diretamente para a porta. A imagem que presenciaram calou até mesmo o mais devoto dos devotos: um homem com seus dois metros de altura, prostrado à porta da igreja portando somente suas vestes e uma gigantesca espada de duas mãos. Como plano de fundo, uma Blesian coberta de neve.

Ror ergueu a espada sobre sua cabeça e abateu o primeiro fiel. Ela cortava vento, carne e sonhos e, naquele momento, cortou o silêncio daquela pequena igreja. Em poucos segundos a ordem transformou-se em caos e homens e mulheres corriam debatendo-se pelo salão principal, tentando encontrar um meio de fugir da morte. A cada grito de horror, Ror irritava-se mais e mais e, quanto mais se irritava, mais rápido desejava acabar com aquilo tudo. Brandia sua espada com fúria, tentando trazer de volta o silêncio que lhe fora roubado por aquela pequena cidade.

Ao lado oposto do salão principal, havia somente uma figura distoante de toda aquela situação: um padre em pé, parado, com um ar sereno e confiante no rosto. Ror não entendia aquilo. Isso simplesmente não fazia sentido. E, mais breve que um suspiro, sua atenção, seu foco e seu objetivo de vida viraram-se contra aquele homem. Ele devia matá-lo e nada mais importava no mundo dos homens. Apesar do frio, o suor escorria pelo seu rosto. Ele corria como se esta fosse a última corrida de sua vida, o último esforço, os últimos metros… a última morte.

A menos de um metro de distância do padre, Ror ergue sua espada sobre sua cabeça e, antes que possa desferir o golpe fatal, o padre, ainda com um leve sorriso no rosto, toca sua testa com uma das mãos. Ao contato da pele, Ror percebe-se envolto pelo silêncio que tanto almejava. Um silêncio profundo; profundo como as profundezas do oceano, como a infinitude da noite. Sentiu-se a montanha mais alta cujo topo reserva-se somente ao vislumbre das estrelas. Seu silêncio durou dias, meses, anos, séculos, milênios… Não existia frio, não existia padre, não existia Ror. E assim o tempo deixou de ser tempo e o nada transformou-se em tudo.

O Despertar de Ror

Um calor toma-lhe a face. A escuridão começa a se desfazer numa luz fraca no horizonte. Pouco a pouco seus sentidos voltam a tona. O barulho dos pássaros, o mármore frio sob seus pés, a brisa na face… cada experiência lhe é nova como a um recém nascido. O calor espalha-se pelo seu corpo, centímetro por centímetro. Por alguns minutos Ror medita consciente, degustando o prazer da respiração.

Após acostumar-se com a ideia dos segundos e minutos, Ror abre os olhos. Sentado em seu trono a memória lhe atinge como um raio. “Eu sou Rei!”, diz em voz baixa e trêmula. “Ou pelo menos era!”.

Ao olhar o salão em ruínas, lembra-se confuso do que ocorrera antes de cair no sono:  seu filho, Tor, completara dezoito primaveras e hoje seria um dia de festividades em todo o reino. Lembra-se dos casais dançando no salão principal, lembra-se dos poemas criados para a ocasião e de como os poetas recitavam as suas conquistas, repletas de hipérboles, metáforas e todos os temperos das bajulações clássicas. Lembra-se do brilho dos adornos dourados das colunas, dos desenhos no mármore negro e de toda a beleza do seu lar. Mas agora, não há sinal de festas, de ouro, de glória; não há pássaros azuis entrando e saindo pelas janelas redondas; não há músicas nem poemas. Não há flores. Tudo que vê é um salão em ruínas: metade do salão encontra-se sem teto. A maioria das colunas está destruída, os blocos de mármore negro encontram-se rachados e as estátuas de seus ancestrais encontram-se sujas e desmembradas. O mato invade o salão. Ao que parece, o tempo devorou cada centímetro do lugar e, ao se dar conta disso, Ror sente um cala-frio na espinha: o que aconteceu com as pessoas? E meu filho? E por que continuo aqui? Teria o tempo devorado também seus entes queridos?

– Tor! – grita. Em resposta, a voz grave de um rei vigoroso. Desesperado, Ror corre pelo salão em direção à saida leste.

A varanda em forma de arco exibia uma Blesian deserta e em ruínas. No horizonte o Sol se punha, deixando um degradê vermelho e laranja no céu. Sentado ali, ao ar livre, de pernas cruzadas, encontrava-se o que lhe parecia ser um monge. Ror, irritado e ao mesmo tempo feliz por encontrar alguém, contorna o homem para olhá-lo de frente. Para sua surpresa, o monge era apenas um garoto com seus treze ou quatorze anos. De olhos fechados ele parecia tão frágil, como se pudesse ser esmagado com apenas uma das mãos. Então, Ror segura-o pelo pelo pescoço e acorda-o de sua meditação.

– Quem é você? O que está fazendo aqui? O que aconteceu?

– So-rrrr-solte-me… – disse o monge entre dentes, sufocado pela mão de Ror. Ele então é largado a alguns centímetros do chão e cai torto.

– Anda, pirralho. Conte-me tudo! O que aconteceu?

Após o susto passar, o monge dá um suspiro de alívio e diz:

– Até que enfim você despertou!


Leia o Capítulo 3: Rorámiac

Domingo Macabro Nº 1 – Um Detalhe Inconveniente

Olá, pessoal. Tudo bem? Espero que sim…

Trago pra vocês o primeiro de uma série de posts que apelido de “Domingo Macabro”, onde postarei diversos contos de terror para vocês. Eu gosto muito de escrever contos de terror pois as ideias sempre surgem de situações inesperadas. Este, particularmente, surgiu num dia em que eu estava indo trabalhar e, no ônibus, sentei ao lado de uma mulher que carregava no colo um garoto bem pequeno e franzino. Ela me olhava de um jeito assustado, com medo, como se eu fosse agarrar seu filho pelos braços e sair correndo por aí! Então, comecei a pensar num personagem de uma mãe assustada e que tem pânico e… enfim, espero que gostem do conto e, se for o caso, acompanhem os próximos posts.  Um grande abraço e uma boa leitura!

***

É engraçado como simples detalhes são capazes de travar nossas pernas, acelerar nosso coração e fazer com que suemos frio. Naquela noite de domingo, Isabela acabava de voltar de viagem com seu marido Vinicius. Eles haviam passado o final de semana num chalé em Penedo, comemorando seus dez anos de casamento e apreciando a ótima combinação entre vinho, frio, montanha e fondue. Seu filho, Carlos, pedira para ficar em casa. “Eu nunca fico sozinho e nunca pedi para ficar. Essa é a primeira vez que peço!”, resmungou ele. E com razão! Sendo assim, após conversar com seu marido sobre o assunto, Isabela decide que não havia problema nenhum em aprovar pois, afinal, seu filho já estava bem grandinho para cuidar de si mesmo por um final de semana. Assim, todos ficariam felizes e satisfeitos.

Vinicius havia lhe deixado na porta de casa, dizendo que precisava encontrar seu amigo Henrique, do clube de xadrez, para lhe dar um abraço e os parabéns pelo aniversário de trinta anos. Afinal, não é todo dia que fazemos trinta anos, concorda?  Ela não precisaria se preocupar com as malas pois Carlos, como sempre, ajudaria-lhe a tirar tudo do carro.

Após seu marido virar a esquina, Isabela pega suas chaves e dirige-se até a porta de casa. Mas, sequer houve necessidade de usá-las: ao tentar encaixá-la na fechadura, percebe que a porta está entreaberta. “Mas que droga! Já falei mais de mil vezes pra esse garoto trancar a porta e ele a deixa assim, escancarada? Ah, mas ele vai ouvir poucas e boas!”, pensou, irritada.

Ao abrir a porta, a primeira coisa que Isabela percebe  é uma grande poça de vômito sobre o carpete da sala. Ela poderia pensar nas festinhas adolescentes, no seu filho passando mal por ter comido alguma porcaria comprada na esquina ou em qualquer outra coisa. Mas nada disso passa pela sua cabeça. Ela sequer consegue pensar! Sem saber o porquê, vê-se paralisada sob o arco da entrada, com o coração acelerado e com um forte enjoo. Além disso, aquela visão fazia com que Isabela sentisse um calafrio que lhe arrepiava da cabeça aos pés.

Após alguns segundos de paralisia, Isabela recobra os sentidos e começa a processar tudo à sua volta. Alguma coisa estava errada, muito errada: a porta aberta, a poça de vômito, as luzes apagadas e o silêncio profundo. Tudo que conseguia ouvir era o som do vento cruzando a casa pelas janelas abertas. Toda aquela escuridão e frio lhe deixavam com medo. Sendo assim, a primeira coisa que fez ao entrar foi acender as luzes e fechar a porta.

“Carlos? Cheguei!”, tentou gritar, mas tudo que saiu de sua boca foi um som rouco e abafado. Esperou por mais alguns segundos, mas não obteve respostas. “Ou ele está em seu quarto, ou não está em casa!”  pensou e, lentamente, caminhou em direção ao quarto mais próximo. Assim como a porta principal que dá para a sala, a do quarto de Carlos encontra-se aberta. Porém, com uma pequena diferença: a luz está acesa e, de dentro, um som de uma música lenta e repetitiva pode ser claramente ouvido. Sem pensar duas vezes, corre até a porta e a abre rápida e abruptamente.

No centro do quarto encontra-se Carlos, sentado sobre um pequeno banco de madeira. Sua cabeça pendia para frente, com seu queixo encostado no peito. Seus olhos estavam vendados com um pano que em algum momento do passado era branco, mas que agora possuía tons de vermelho. Havia sangue espalhado por todo o quarto: mãos nas paredes, rastros no chão e uma grande mancha sobre o tapete abaixo de Carlos.

“Não, isso não pode estar acontecendo! Estou em um pesadelo!”. Sem pensar em mais nada, Isabela corre até seu filho e remove a venda de seus olhos. Sua cabeça, pendendo mole e sem vida, lembrava-lhe um boneco de pano. Ao levantá-la, Isabela percebe que, no lugar onde ficavam os olhos, havia simplesmente dois grandes buracos vermelhos.  Suas mãos congelaram e seu grito desesperado exalava todo o seu pavor. Tudo o que conseguia ouvir era a batida do seu coração acelerado. À sua volta, tudo ficava cada vez mais escuro.  Após o que lhe pareceu uma eternidade, a música que antes tocava lenta e repetitiva transformara-se numa gargalhada seca e lúgubre.

No lado oposto do quarto, atrás de Carlos, encontrava-se um armário de madeira. Sobre ele, um rádio onde seu filho costumava ouvir suas músicas favoritas e um grande espelho com a imagem refletida de um corpo inerte sobre um banquinho, uma mulher choramingando assustada e, atrás desta, um homem com um martelo na mão, rindo desenfreadamente.

Desesperada, Isabela corre e se tranca no banheiro do quarto. Apoiada na porta, Isabela tenta ouvir o que se passa lá fora e, após alguns segundos de silêncio, escuta o som oco da bota grossa sobre a madeira vindo em sua direção. Ao sentir o crescente cheiro podre vindo de fora, Isabela começa a passar mal. Com uma das mãos, alcança o celular no bolso da calça e tenta usar a discagem rápida para ligar pro seu marido. Nenhum sinal da operadora. Logo em seguida a forte pancada na porta faz com que Isabela se assuste e derrube o celular no chão. Pancada atrás de pancada, buracos surgem na frágil porta. Sem saber mais o que fazer, Isabela cata as partes do celular que se espalharam pelo chão, corre para o canto do banheiro e, sob o chuveiro, agachada, tenta remontá-lo o mais rápido possível. Pressiona o botão de power e aguarda nervosa enquanto a tela de inicialização exibe cores debochadas: segundos preciosos jogados pelo ralo. A rajada de ar vinda da porta, agora aberta, aperta-lhe o coração como garras frias e afiadas. Antes mesmo que pudesse se virar, Isabela sente uma forte pancada na cabeça e tudo fica escuro como uma noite sem estrelas.

– Amor? Você está bem? – Isabela abre os olhos ao custo de fortes dores. Sua cabeça lateja e uma convulsão de cores toma-lhe os sentidos. Após alguns segundos de adaptação à luz ambiente, Isabela não podia ver imagem mais reconfortante e surpreendente: em pé ao seu lado na cama, encontra-se Vinicius e Carlos, ambos com um grande sorriso no rosto. Ela tentou se segurar – na verdade, em toda sua vida, Isabela sempre se segurou e sempre quis passar aquela imagem de mulher forte e guerreira -, mas não conseguiu: as lágrimas saiam sem pedir permissão e tudo que ela conseguia fazer era chorar e abraçar os dois grandes amores da sua vida.

– Mãe, a senhora me perdoa?

– Te perdoar? – e, assim, a lembrança dos acontecimentos lhe atinge como um raio.

Ao sair do carro Isabela pega suas chaves e dirige-se à porta. Ao tentar encaixá-la na fechadura, percebe que a porta está entreaberta. O medo faz com que simples detalhes como este transformem, de um minuto ao outro, todo nosso estado de espírito. A alegria e a saudade tornaram-se uma raiva apreensiva. Uma raiva branda, daquelas amenizadas pela esperança de que, apesar do recado não ter sido seguido, tudo está bem. Irritada – porém temendo o pior – Isabela tenta gritar por seu filho, mas tudo que sai da sua boca é um som rouco e abafado. Percebendo uma grande mancha sobre o carpete e a luz do quarto do seu filho acesa, Isabela tenta correr mas, ao dar o primeiro passo, escorrega na pequena poça de suco de laranja no chão e bate fortemente com a nuca no assoalho liso e frio.

– Sim, mãe. Eu sujei a casa e não limpei e a senhora quase morreu.

Inesperadamente, Isabela solta uma alta e breve gargalhada – as dores ainda lhe podavam as ações.

– Tudo bem, filho, tudo bem. Eu te perdoo, tá? Tudo poderia ter sido bem pior…

E, ignorando as dores e o cansaço, dedica ao seu filho o abraço mais gostoso já dado em sua vida.

A Casa dos Desejos

     Andando sozinho numa rua deserta. Nada nem ninguém para me chamar a atenção. Pelo menos essa é a impressão que tive e que tenho sempre que estou andando e olhando para o nada, pensando na vida ou na morte. Mas naquela quarta-feira aconteceu algo diferente. Lembro-me que o dia estava nublado, as nuvens projetando para o resto do mundo o meu estado de espírito: um lúgubre e tenebroso inverno de pessimismos e descrenças que acompanha o coração daqueles que vivem uma decepção. O tempo se arrastava lentamente. Não demorou muito, trovões inundaram as ruas com seus sons agourentos e um ar carregado de cheiro de chuva invadiu minhas entranhas. Até que desisti e parei por alguns segundos. O mundo pedia para que eu parasse e me entregasse. E eu obedeci! Foi ai que avistei, do outro lado da rua, num muro cinza e maltratado, um letreiro torto e fosco cujas palavras me chamaram a atenção. Sentia o gosto do convite e fiquei com água na boca. Um convite para o novo, para aquilo que eu realmente precisava.

A Casa dos Desejos

O casebre me atraiu como um ímã e não pude conter minhas pernas. Em poucos segundos já estava subindo os degraus da escada interna. A madeira rangia enquanto eu subia e seu som me trazia bons presságios. Presságios de mudança.”, pensei. A escada dava para um corredor antigo e o que antes era um cheiro de chuva transformou-se em cheiro de mofo. Em ambos os lados os papéis de parede estavam manchados com marcas de infiltração e, em alguns pontos, rasgados. Apesar da aparência peculiar, senti-me acolhido e protegido sob o teto daquela velha senhora. No final do corredor, em contraste com o restante do ambiente, uma grande porta de madeira, envernizada e muito bem conservada , encontrava-se semiaberta. Com os nós dos dedos, dou algumas batidas para anunciar a minha presença. Nenhuma resposta. Mas senti que não poderia parar. Não devo parar! – pensei. Naquele momento a curiosidade já havia tomado conta de mim.

Ao abrir a porta, deparei-me com um cômodo pouco iluminado, a mercê de algumas poucas velas espalhadas sobre imponentes móveis de madeira. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma pequena mesa redonda que se encontrava no centro da sala, com duas cadeiras dispostas de modo que seus ocupantes ficassem um de frente para o outro. No centro dela, somente um baralho. Após dar alguns passos em direção à mesa, uma mulher surge através de uma porta do lado oposto da sala. A sua presença me paralisou. Não foi a beleza do seu corpo adornado por um vestido preto e delicado, seu cabelo longo emoldurando um rosto branco que carregava lábios pintados por um batom vermelho convidativo, nem o modo como ela segurava as duas taças de vinho tinto que me paralisaram, mas sim a sua presença e o seu olhar.

-Sente-se, rapaz! Sua aparência me faz pensar que você precisa descansar, conversar e ouvir algumas palavras. Gosta de vinho?

Fiquei calado pelo que me pareceram horas. A sua voz me tranquilizou de uma maneira que jamais esquecerei. Sentia-me como se a conhecesse a anos, como se sua voz despertasse em mim a esperança e o calor que há muito haviam me abandonado. Normalmente tal convite me causaria um sentimento de  desconfiança que provavelmente me faria recusar o convite, mas naquele momento a única coisa que senti foi uma vontade enorme de sentar naquela mesa, tomar aquele vinho e ouvir o que quer que ela tivesse para me contar.

-Pensei que você não fosse aparecer. Seria uma pena. Um desperdício, na verdade. – Surpreso e um tanto quanto confuso, demorei para conseguir dizer as primeiras palavras.

-Você estava me esperando? Como? Por que? E quem é você? – Com um breve sorriso e um balançar de cabeça ela me fita nos olhos.

-Como sou mal educada! É claro que você não tinha como saber. Claro! Prazer, meu nome é Vanessa. – disse, levando a mão direita à frente, num gesto de cumprimento.

-E eu me chamo Fernando. Mas pode me chamar de Nando. – respondi, apertando-lhe a mão. – O que você quis dizer com desperdício?

-Nando, Nando. Você entenderá isso e muitas outras coisas em pouco tempo. Não se preocupe, estou aqui para isso! E, em breve, você também será capaz de perceber as conseqüências de tudo que lhe disse e dei. – suas palavras só me causavam mais dúvida e confusão. Desviei meu olhar para o resto do cômodo, mas ver uma sala limpa e organizada não me ajudava muito a esclarecer as coisas.

-Posso fazer mais uma pergunta? – disse, fugindo de meus devaneios.

-Claro querido. Afinal, você é meu hóspede! Que anfitriã seria eu se lhe negasse o direito a perguntas?

-Hóspede? – respondi, mais alto e rude do que o pretendido. – Na verdade, não pretendo ficar aqui por muito tempo. Já estou de saída. Nem sei o que estou fazendo aqui.

-Mas eu sei. – colocando sua mão em meu rosto, Vanessa me dirigiu um olhar penetrante e sério. O toque gélido de sua mão fez com que eu me arrepiasse da cabeça aos pés. Ao aproximar o seu rosto do meu com um sorriso acolhedor, pude sentir o cheiro de seu cabelo e perceber melhor a maciez de sua mão. Por mais que uma voz dentro de mim me dissesse que aquilo tudo estava errado e que deveria partir, eu não era capaz de lutar. E também não queria fazê-lo.

-Durante o tempo que você permanecer em minha casa eu lhe chamarei de hóspede. – suas palavras puseram um ponto final na questão. Seu tom de voz era firme, austero, uma antítese clara à sua feição.

– Pois bem, faça a sua pergunta.

-Por que “casa dos desejos”? – as palavras saíram com timidez.

-Porque aqui você entrará em contato com os seus desejos mais íntimos e profundos, mesmo aqueles que você não conhece. No seu caso eu sei o que você deseja e o que precisa. E para conseguir o que deseja, você precisa de três coisas. A primeira delas é uma carta. Já a segunda e a terceira dependem do resultado de sua escolha. Portanto, escolha uma e coloque-a desvirada sobre a mesa. – após falar isso, Vanessa me indicou o monte ao centro da mesa. Escolho uma carta aleatoriamente. Nela, somente uma palavra escrita com letras garrafais.

VERDADE

-Uma carta interessante! Você precisa da verdade. Esta, então, é a segunda coisa. A verdade é bastante curiosa, não acha? Ela pode representar várias coisas. Tudo depende do como e do quando. Ela pode, por exemplo, revelar que você é um assassino no momento em que você encontra a sua mulher na cama com outro, e isso é o como – Como a verdade lhe foi apresentada.

– Imagine também que eu poderia ter-lhe apresentado a verdade há alguns dias atrás, antes de você ter matado a sua esposa, mas decidi fazê-lo somente agora. Isso faz parte do quando. Perceba, Nando, que a verdade é uma faca de dois gumes, e precisamos aprender a lidar com ela. Nesse mundo, só é bem sucedido quem sabe utilizá-la corretamente. Estou aqui somente para lhe apresentar a verdade. O resto, o amargo caminho da descoberta e do aprendizado, você terá que percorrer sozinho.

Suas palavras me atingiram como um raio. Não esperava que ela soubesse algo sobre meus erros, meus pecados… Sobre a minha verdade! Ela tocara em uma ferida ainda recente, não cicatrizada. Eu matara a minha mulher e seu amante a sangue frio. Não fui capaz de conter o ódio, a raiva, o instinto e este segredo corroía minha alma e sanidade dia após dia. Não fui capaz de conter minhas lágrimas. Lembro-me de ter começado a chorar desesperadamente, como se estivesse prestes a pagar por todos os meus pecados e o fato de estar arrependido não me livraria do inferno.

– E agora? Qual a terceira “coisa” que eu preciso? Você… irá me matar?

– Como você é ingênuo, Fernando. Não é da morte que você precisa.

– Então…

– Tempo! Você precisa de tempo e eu vou lhe dar todo o tempo que você sempre desejou. Agora beba o seu vinho.

Esquecera-me completamente do vinho. A taça continuava intacta sobre a mesa. Ela não estava completa, de modo que pude tragar todo o seu conteúdo com um só gole. Foi nesse exato momento que Vanessa se levantou. Ela contornou a mesa lentamente, cada passo calculado fria e metodicamente. Minha visão estava embaçada e distorcida. Não era mais capaz de enxergar o seu rosto belo e tentador como outrora. Tudo o que via era uma face cruel, deformada e vil. Quanto mais ela se aproximava mais medo eu sentia. Então essa é a face da verdade? Lembro-me claramente de ter tentado correr, mas meu corpo não me respondia. Tudo que pude fazer foi me entregar e esperar, esperar…

Lembro-me vagamente da primeira vez que acordei. Sentia uma dor de cabeça absurda e uma enorme… sede. Não consigo me lembrar dos acontecimentos que se seguiram, mas não posso esquecer de quando acordei de verdade. Estava em minha casa, no meu quarto e tudo estava repleto de sangue. Sangue nas paredes, no teto, na cama e no meu corpo. Mas não sentia mais medo, nem sede, nem dor de cabeça. Eu estava aliviado. Abri a porta e segui para a sala. Vazia, exceto talvez por uma mesa e um baralho. Lembrei-me de Vanessa e procurei em vão por toda a casa. Olhei para as cartas sobre a mesa e, pela segunda vez, fui tomado pela curiosidade. Peguei o baralho e olhei carta por carta. Para a minha surpresa, todas elas continham o mesmo símbolo, a mesma letra, a mesma mensagem. Verdade. Foi aí que entendi a cruel sutileza de seu jogo.

A cada dia que passa, vejo as minhas ideias sobre passado, presente e futuro se diluírem e misturarem, tornando-se uma só coisa a qual dou o nome de tempo. Hoje caminho solitário pelas ruas, esperando por uma morte que eu sei que nunca virá. E a verdade? Bem… quem sabe, um dia, eu volte a encontrá-la?

Vingança Nua e Crua

     Essa noite era uma daquelas que Mateus costumava chamar de “difíceis”. Em casa, sozinho, após um dia longo e estressante, tudo o que ele mais queria fazer era tirar os sapatos já nem tão bem engraxados como mais cedo, jogar-se sobre o sofá grande e macio e, assim, descansar ao som de uma música calma e reconfortante. E foi isso que ele fez. Ligou a TV em um daqueles canais de gêneros musicais e sequer se preocupou em fazer uma escolha. Gostava da aleatoriedade daquele ato e só se preocuparia depois, caso necessário, com a reação de trocar de canal ou entregar-se por completo.

     Ah, como aquela música era gostosa! Uma batida lenta, ritmada e suave, um blues que há muito não ouvia. Quantas vezes ele já não sentara e viajara com aquela música, como agora? Talvez devido à influência do cansaço, entregar-se foi muito fácil e, mais rápido do que supusera, aquela melodia lenta e gostosa tocava-lhe a pele como os lábios doces e macios de um longo beijo. O calor de suas notas era como um abraço apertado ou o carinho no pescoço que sempre lhe arrepiava a pele. Quando menos esperava, viu-se desnudo na alma, entregue à mercê de sua própria solidão. Ah, e como isso era bom!

     E foi assim – não pela primeira vez, veja bem! – que, nessa intimidade só sua, ele percebeu que aqueles beijos e abraços calorosos, que aquela pele cheirosa e macia, que aquele cabelo roçando-lhe a face não era fruto de uma mente criativa, nem mesmo de uma realidade reconfortante, mas sim parte das inúmeras lembranças de Marcele. O que a alguns segundos era serenidade transformara-se em um sentimento triste de perda e saudade. Aquela solidão companheira e compreensiva de outrora mostrava sua cara em um sorriso maléfico, dançante, ao som daquele maldito e incansável blues. “Solidão! Pfff… A mão que afaga é a mesma que apedreja! Nunca pensei que Augusto dos Anjos estivesse tão certo. Já deveria ter me acostumado!”, pensou. Após um longo suspiro, levantou-se e desligou a TV.

   Marcele era uma daquelas mulheres que viviam sempre com um sorriso no rosto. Sempre que ouvia essa música ele se lembrava do quanto ela gostava de sentar ao seu colo e sussurrar baixinho cada palavra em seu ouvido. Gostava de pensar que herdara dela essa paixão pelo aleatório.

          – O que você quer fazer agora, amor? – perguntava ele, sem conseguir se segurar.

          – Pare de pensar e deixe rolar. Dance comigo ao ritmo da vida. – era essa a resposta habitual de Marcele e também a sua favorita.

     Embalados pela “música da vida” e pelo blues, o casal decidiu, numa noite abafada de fevereiro, pegar o carro e realizar um sonho que há muito planejavam: viajar sem destino, conhecendo novas estradas, novos hotéis, novas paisagens.

             – Precisamos sair um pouco da rotina, querido. Precisamos acordar com a incerteza, entende o que quero dizer? Estou cansada de acordar sabendo que vou levantar, fazer a comida, fazer isso e aquilo. Vamos? – dizia ela com um sorriso tão lindo e meigo que nem mesmo o Papa seria capaz de recusar-lhe um favor, por mais pecaminoso que fosse.

     A única exigência de Marcele era que ela passasse na casa de seu amigo Carlos para que pudesse pegar sua necessaire que havia esquecido no dia anterior, após o final de semana no qual Carlos ofereceu um churrasco para os amigos e alguns familiares em comemoração ao seu novo cargo na empresa. “Fui promovido a gerente administrativo, porra! Exijo a sua presença aqui em casa nessa sexta-feira. Pode trazer o seu namorado também, claro.” Foram exatamente essas as palavras repetidas por Marcele após a breve conversa com Carlos ao telefone.

   Sendo assim, após separarem algumas roupas, dinheiro e todas as coisas que julgavam básicas e fundamentais para viajantes, Marcele pegou seu  carro e se dirigiu até a casa de Carlos. Mas as coisas não ocorreram como o planejado.

     A lembrança calorosa do seu amor sempre vinha acompanhada do inevitável calafrio da lembrança daquele acidente de carro. Era como estar na praia em um dia ensolarado e, de repente, uma nuvem pesada estagnasse em frente ao Sol, causando desânimo e desapontamento. Só de pensar no destino trágico de sua noiva ele sentia náuseas, náuseas essas que sempre lhe minavam a vontade e a esperança de um futuro feliz. “Se não fosse por aquele imbecil ela ainda…”, mas não gostava de pensar nesse tipo de coisa. Como um simples detalhe pode acabar com a vida de uma pessoa? Se ela não tivesse esquecido aquela necessaire. Se o idiota do Carlos não tivesse insistido TANTO para que ela comparecesse àquele churrasco…

     Ele não conseguia lembrar de uma imagem sequer daquele acidente e isso, de certa maneira, lhe gerava duas sensações distintas: a primeira era tranquilidade, pois ele preferia lembrar-se de uma Marcele alegre e com vida. Já a segunda era inquietude. O trauma fora tão grande que sua mente bloqueara, por proteção, qualquer lembrança – por menor que fosse – daquele evento. E isso era um tanto quanto curioso.

     Tentando livrar-se daquela solidão sufocante, Mateus decide “dar uma volta”, como costumava dizer, pelos bares da rua. E por “dar uma volta” ele queria dizer “encher a cara”. Mas não foi necessário chegar ao primeiro bar, à calçada, ou mesmo abrir a porta para matar sua carência de companhias inúteis: quando virou-se para sair encontrou seu amigo Maurício sentado numa cadeira próxima à porta, com as mãos cruzadas sob o queixo.

             – O que você está fazendo aqui? E como entrou? Você me deu um baita susto, idiota! – disse Mateus, pego de surpresa.

     Maurício, com seu sarcástico  e habitual sorriso no rosto, olhava para Mateus sem dizer uma palavra. “Há meses que não o vejo e esse filho-da-mãe sequer mudou a barba!”, pensou Mateus.

            – O tempo passa e você continua ridículo e chorão. Impressionante! Além disso você não perdeu o péssimo hábito da chave sob o capacho. Já cansei de lhe dizer que a culpa não foi sua. Se existe um culpado nessa história toda e que está impune até agora é o tal do Carlos.

           – Que seja! Não há nada que eu possa fazer. Foi pra isso que você veio aqui? Para encher o meu saco?

           – Na verdade eu vim aqui porque me preocupo com você. Já passou da hora de você dar um ponto final nessa história toda e, para que servem os amigos além de apoio e incentivo?

     Nesse momento, Maurício levanta de sua cadeira e dirige-se ao quarto de Marcele. Mateus o segue, incrédulo, sem sequer desconfiar das intenções de seu amigo. Maurício abre a porta, dirige-se à cômoda da parede a esquerda e abre uma gaveta. Ele parecia saber o que estava fazendo. Movia-se e agia como se a casa fosse sua e como se conhecesse cada cômodo, cada gaveta, cada segredo.

          – Eis o que você deve fazer. Ou não tem culhões para isso? Planejamos isso tudo a toa? – e, após dizer tais palavras, Maurício joga sobre a cama arrumada uma pasta gorda e inchada, repleta de fotos e papéis rabiscados. A imagem daquela pasta veio em sua mente como um coice. Quando viu Maurício sentado naquela cadeira, na sua sala, ele no fundo sabia o porquê daquela visita. Eles haviam conversado sobre ela logo após o acidente com Marcele. “Voltarei daqui a alguns meses. Preciso arrumar minha vida antes de voltar”, disse Maurício na época. Mas aquela pasta e aquela visita pertenciam a um lado obscuro da sua vida. Um lado que Mateus lutava para se livrar, para destruir, mas que nunca conseguia. Afinal, de uma forma ou de outra, aquilo tudo fazia parte do que ele era. Livrar-se da sombra era o mesmo que amputar uma parte de si. E ninguém quer isso, concorda?

   Empolgado como uma criança montando seu novo brinquedo, Mauricio expunha o material e os planos que eles tinham registrado naquela pasta. Ao ver aquelas imagens do homem que culpava pela morte de sua namorada, Mateus não conseguiu evitar os pensamentos de vingança. Seu lado sombrio acordara e voltava à superfície de maneira tão rápida e feroz que não foram necessários nem dez minutos para que Mauricio lhe convencesse e ele decidisse, de forma definitiva, a por seu plano em prática.

     Passados alguns dias, tudo estava preparado. O plano era simples, sujo e fácil: eles sabiam que Carlos costumava correr aos sábados a noite e, logo depois, voltar para casa, tomar um banho e ficar assistindo TV, acompanhado apenas de algumas latas de cerveja, até cair no sono. Aos domingos ele era acordado por uma linda mulher que lhe fazia visitas pontuais, as oito horas da manhã, e costumava passar o dia todo com ele. Pois ela teria uma desagradável surpresa ao acordá-lo no próximo encontro. Uma vingança nua e crua.

***

     A noite estava clara e tranquila. Pelo menos no bairro pacato onde Carlos morava. Olhando para ver se ninguém estava por perto bisbilhotando, Mateus corre para a lateral esquerda da casa, onde ficava a garagem. Ao lado do portão maior para o carro, havia um menor que levava a um corredor estreito entre a casa e o muro. Sem muita dificuldade, Mateus pula e fica escondido, aguardando Carlos voltar de seu cooper noturno. Após uns vinte minutos de espera, a luz do poste mais próximo denunciou sua chegada. Gira a chave, bate a porta, caminha a passos firmes. Cada movimento podia ser ouvido pela parede de madeira e Mateus aproveitava isso tentando alcançar alguma janela próxima. Em pouco tempo ele ouve um barulho de chuveiro. “Agora é a hora!”, pensou. Lentamente ele abre a janela da sala e entra, sem muitas dificuldades.

     O cômodo estava escuro. A única luz que iluminava o ambiente era a do banheiro onde Carlos tomava banho. O ar pesado e com forte cheiro de livros e tabaco lhe fez lembrar uma casa de um senhor escritor: uma grande estante de mogno envernizada e repleta de livros antigos. No centro, uma pequena mesa, também de madeira, ladeada por poltronas coloniais. No chão, um grosso carpete vermelho que abafava os passos de qualquer um que lhe pisasse. Mateus duvidava que algum dia Carlos tenha lido algum daqueles exemplares de Filologia ou que sequer tenha perdido noites de sono escrevendo naquela mesa. Nada daquilo era a sua cara. Talvez essa casa tenha sido passada de geração em geração, de pai para filho.

     Imerso naquele ambiente, Mateus ergue a faca com a mão direita contra a luz vinda do banheiro. Sua mão estava firme, nada de tremedeiras. Isso era um bom sinal. Significava que não hesitaria, que era exatamente isso que deveria ser feito. Caminhando a passos curtos, Mateus aproxima-se da porta do banheiro. Carlos estava cantarolando alguma música ridícula e infantil, como se estivesse alegre ou algo assim. A porta estava entreaberta e um vapor denso saia por ela. Arriscou uma olhadela de um olho só. A porta do box estava aberta. Nela, duas toalhas penduradas. Ele estava tão distraído com sua canção e com a água caindo sobre seu rosto que sequer foi capaz de perceber quando Mateus aproximou-se sorrateiramente. Com um único golpe, enfia-lhe a faca entre as costelas, tapando-lhe a boca. Tudo que se ouvia era o barulho da água caindo no chão e os suspiros abafados de Carlos. A faca penetra-lhe a carne uma, duas, três, quatro vezes, e, após longos segundos, Mateus sente o peso da pessoa morta em seus braços e o deita no chão. No semblante de sua vítima era possível distinguir o pavor e o medo.

     Seus braços, calça, camisa… tudo estava repleto de sangue. Uma grande sujeira. Levantou então o braço e desligou o chuveiro. Ficou sentado em meio àquela bagunça pelo que lhe pareceram horas até que, em meio àquele vapor, aparece a imagem de Marcele vestindo uma camisola rosa. Sua pele continuava branca como a neve, lisa; seus cabelos negros, soltos, caídos sobre seus ombros delicados: idêntica à última noite que estavam juntos. Exceto pelo lindo sorriso que não mais existia. Seu semblante era de tristeza e nojo. Tudo aquilo era muito real. Real como se nunca tivesse havido acidente algum. Como se os dias não tivessem passado e eles tivessem acabado de voltar daquele churrasco. Como se há poucas horas estivessem conversando sobre viajar, desbravar o mundo e ir pegar a necessaire na casa de Carlos.

             – O que você fez? – suas palavras chorosas tocaram Mateus de uma maneira horrível. Tudo aquilo ERA real. Ele não estava sonhando com Marcele: ela estava ali, viva, a poucos passos de distância.

     E, lentamente, a sua memória foi ficando clara como o dia e ele pôde se lembrar. Não houvera acidente de carro, nem mesmo a morte de Marcele. Tudo aquilo fora um sonho, uma invenção da sua mente doentia. Agora Mateus se lembra dela saindo de casa para pegar sua necessaire e demorando para voltar. Lembra-se das fotos do detevive particular, dos meses de investigação e da raiva por saber o motivo real daquela visita. Lembra-se do momento em que pegou as chaves do carro e dirigiu até a casa de Carlos, com ódio. Lembra-se de como entrou pela porta da frente que estava encostada, do cheiro de tabaco, da luz do banheiro e da triste realidade que se apresentava: Marcele e Carlos estavam tendo um caso. E de, por fim, em seu desespero, ter procurado por uma faca, de como dera fim à vida daquele homem e de como jogara tudo que construíra na vida pelo ralo.

             – A polícia já está a caminho. Você nunca deveria ter saído do hospital. Isso tudo é culpa minha. Eu pensei que estivesse curado.

             – A culpa não é sua… – respondeu Mateus.

     E então, mais uma vez, Mateus esperou, olhando pela última vez para a mulher que amava, ouvindo a risada fria de seu amigo Maurício que na sala ouvia um blues melancólico que só os dois eram capazes de ouvir.

Rafael L. Toscano

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   Olá! Agumas das pessoas que chegaram até aqui – e leram todo o conto! – podem estar com algumas perguntas na cabeça. Eu deixei uma questão em aberto de propósito. Isso faz parte do “psicológico” (como assim?) do texto, da história, do personagem Mateus. Se tiverem alguma dúvida, crítica (construtiva), correção (sempre escapa algum erro bobo) ou opinião podem deixar um recado neste conto que eu terei um enorme prazer em respondê-los.

   Esse é o primeiro conto desse estilo no blog. Espero que não tenha ficado ruim, rs.

   Desculpem-me se a formatação do texto não estiver muito agradável.

   Até o próximo conto!

Escrevendo…

Eu quero que você leia meus textos e sinta, em cada frase, uma sensação diferente. Quero passar com cada nome de personagem, em cada situação, um sentimento, uma impressão. Posso escolher um nome que lhe faça pensar no verão, em calor e sol, assim como posso tentar passar uma sensação de chuva e escuridão. Mas ai você pode se perguntar: como conseguir isso se cada pessoa pode perceber e sentir situações de maneiras diferentes?     

Sei muito bem que a maneira como percebemos acontecimentos é guiada por uma quantidade de fatores que tende a infinito. Para exemplificar eu gostaria de citar o por do sol. Sentado sozinho em uma praia, olho para o horizonte e vejo o Sol se por tão lentamente, daquela maneira como o tempo move o ponteiro das horas e faz crescer barba e cabelo. Como percebê-lo? Isso vai depender de detalhes mais óbvios e locais como, “Meu dia foi bom? Estou bem? Briguei ou me diverti muito? O que me trouxe a essa praia?”, assim como informações mais macroscópicas e globais, como, “Estou solteiro ou casado? Meu dia foi ruim, mas tal problema tem sido uma constante ou uma variável instável? Essa é a primeira vez que estou aqui, olhando para este sol, sentindo-o, ou faço isso com muita frequência?”. Ou seja: o “como” e o “o que” sentir são definidos pelo que somos. Tem tudo haver com o momento e com as experiências.  Faz parte de nossa personalidade.

Voltemos então ao por do sol. Num momento ruim, posso olhar para ele e pensar na morte e na mentira. Uma morte de mentira. Uma pequena travessura da natureza. O sol morre, esta é a impressão que tenho. Ele some e tudo vira trevas. Tudo acabou. Mas no outro dia ele volta e repete sua mentira para todo o mundo ver e lembrar que o fim sempre chega. Ele pode demorar e se mover de tal modo que não sejamos capazes de perceber – lembra-se do ponteiro do relógio? -, mas ele sempre chega. A hora sempre chega!

Agora, se estou olhando para o sol e me sinto bem, feliz, bem feliz, o poente pode ser interpretado como um fenômeno diferente. Olho para o mar e vejo o reflexo de seus raios tortos, perfeitos em sua imperfeição. Vida! Aprecio o vento que cisma em afirmar que estou vivo. Ah, e como isso é bom!  Uma verdade que a natureza vem nos mostrar com o início da noite. Sinto um calor interno, saudade e certeza. Certeza de que dias como o de hoje podem se repetir. Quem sabe amanhã ou depois? Quiçá mês que vem? Ninguém sabe quando, mas ele virá e, apesar de todas as coisas chatas e problemáticas, fico aliviado de que, amanhã – de sabe-se lá -, poderei me sentar aqui mais uma vez e pensar somente em como é bom viver, pois, como diria Fernando Pessoa: “As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.

Respondendo, então, à pergunta, posso dizer que tal escrita não me parece fácil e, muitas vezes, diria impossível. Mas, acredito, que todo escritor tem na escrita alguns objetivos intrínsecos. E escrever, muito mais que uma simples obrigação de “fazer sentir”, está mais ligado ao “sentir” em si. Muitos escrevem por desafio, por obrigação, para provar alguma coisa a outrem ou a si mesmo, outros escrevem para que lhe enxerguem com maior nitidez ou para que possa enxergar melhor a si mesmo. Aprendizado! Existem também aqueles que fazem de suas crias um espelho. Alguns côncavos, outros convexos. Poucos planos, claro. Outros escrevem pelo simples prazer de criar realidades, personalidades, pessoas únicas e singulares. Quem não gosta de brincar um pouco de Deus?  Enfim, cada escritor tem seus próprios objetivos, seus porquês, uma pitada de personalidade que define cada um de seu trabalho, seja este amador ou profissional. Mas, talvez, um dos grandes porquês reside no sentimento. Portanto, acredito que o ato de escrever é tão similar ao ato de leitura, a sentar-se ao por do sol e aproveitar o momento. A grande diferença é que, o sol – inspiração – é diferente para cada um de nós.

O Escritor

O escritor queria escrever. Sentou-se em sua cama, travesseiro sob cabeça, caderno sobre colo e lápis na mão. Tudo em seu devido lugar. Mas o que isso significa? “Onde é o meu lugar?” – pensava o escritor. Devo escrever? Devo ler? Devo amar ou odiar? Comer ou beber? Dormir ou continuar acordado? Sonhar ou… E o escritor pensava, pensava e pensava mais um pouco. Não sabia qual livro ler ou qual história escrever. “Há tantas opções!” – dizia para si mesmo. E o caderno ansiava pelo grafite durante horas e horas, sem nada obter, até que o escritor caísse no sono, deixando ambas, escrita e leitura, para o mundo dos sonhos e pesadelos.

A mesma história se repetia noite após noite, dia após dia, e o escritor nada escrevia. E os anos, assim como o caderno e o lápis, eram trocados e descartados na lixeira do tempo.  Ele passou a ser conhecido como o homem-que-nada-fazia. Todas as vezes em que olhava o espelho ele enxergava o reflexo de uma casca sem vida e sem cor. E quando falava em voz alta, sua voz lhe era estranha e seus pensamentos não eram mais seus. Um estranho de si mesmo! Mas eis que um dia o estranho escritor decidiu escrever. Não aquela decisão que havia tomado há anos, mais sim uma atitude concreta.

Suas primeiras palavras surgiram tímidas e fracas, contando o relato de sua própria história. E quanto mais ele escrevia, mais tinha vontade de escrever. As respostas que tanto procurava surgiam de seus atos, assim como um leque extenso de novas perguntas. “Ler ou escrever? Por que temos que escolher?” E devagarinho foi percebendo que todo escritor é também um leitor, e que ele ama, vive, odeia, come, erra e acerta.  Assim como é também o pai, o amigo, a mãe, o vizinho, o inimigo mortal ou o amor de uma vida.

E o escritor percebeu que também era um livro cujas páginas eram escritas a cada passo, a cada choro, a cada sorriso… E que sua história poderia ser lida e vivida por muitos.

Somos muitos em um, mas também um em muitos.

E assim o escritor entendeu que o seu verdadeiro lugar era no livro da vida.

Rafael L. Toscano

Se eu fosse um herói

Existem aqueles dias em que você SABE que precisa escrever. Não porque está inspirado ou algo parecido, mas simplesmente porque você sabe que a única maneira que você tem de SE entender e de que, talvez, algumas pessoas entendam – nem que seja uma parte ínfima do todo – o que se passa na sua cabeça é através da escrita. Em nossas vidas existem muitas coisas boas e muitas coisas ruins. A maioria das pessoas simplesmente tenta se afastar das coisas ruins e se apegar às coisas boas, até mesmo quando essas coisas não existem. Apegam-se a ilusões, criam suas próprias verdades e muitas vezes esquecem das consequências. Outras pessoas têm consciência disso tudo e, justamente por isso, tentam salvar as pessoas que amam das coisas ruins e dar tudo de bom para elas. Essas pessoas tentam fazer com que seus amigos vivam em um mundo de bondade, tentando resolver todos os seus próprios problemas e os problemas dos demais. Elas tentam, mas super-heróis não existem! Eles podem até existir, mas hoje me dei conta de que não sou um deles.

Se pudéssemos carregar todos nas costas…! Quando tentamos, nossas pernas falham, sentimo-nos cansados e de uma hora pra outra acabamos deixando tudo cair. Pelo menos é assim que me sinto nestas horas. De uma forma ou de outra existem coisas nas vidas das pessoas que nós não podemos e não devemos interferir. Talvez porque não seríamos capazes de resolver seus problemas – apesar de sempre acreditarmos que sim -, talvez porque elas têm de andar com as próprias pernas. Se não, pra que haveriam elas de ter pernas? E alguns de nossos problemas tomam vida em rincões inalcançáveis pelas outras pessoas. Sendo assim, elas nunca poderão entender o problema em si e, portanto, somente nós seremos capazes de resolvê-lo. As outras pessoas podem simplesmente AJUDAR. Mas devemos lembrar que ajudar não é sinônimo de “resolver tudo para os outros”…

Infelizmente eu descobri algumas dessas coisas um pouco tarde. Mas como dizem por ai: antes tarde do que nunca! Sabe aqueles momentos em que você só consegue pensar nas coisas ruins que aconteceram com você e nas pessoas a sua volta e não consegue se lembrar das coisas boas? Nessas horas, quando você as lembra, elas aparecem somente para lhe mostrar o quão ruim está a sua situação. Isso acontece como se as coisas boas lhe fossem bloqueadas de alguma maneira, como se alguém tivesse criado uma barreira entre os momentos alegres e tristes e lhe jogassem no lado da tristeza. Você fica sufocado com tudo isso e luta desesperadamente pelo ar, como se estivesse morrendo afogado. Você olha para o futuro e só consegue enxergar o presente: um beco sem saída, uma mente degenerada pelas mágoas e… Neste momento aparecem as lágrimas e até aquelas palavras que você não tinha coragem de dizer. Em alguns casos, quando a “salvação” não se demonstra possível, você acaba optando
pela opção que lhe parece mais fácil: o suicídio. E o mais engraçado nisso tudo é que, como na procura desesperada pela vida, você acaba optando pela morte?

Você sobrevive e para pra pensar. Pensa em tudo o que foi e tudo o que é. Nos erros e acertos, em como seria se tivesse tomado pelo menos um passo em outra direção e como as pessoas lhe enxergam. Ah, se eu fosse um herói! Olho agora para as coisas ruins que aconteceram com as pessoas que amo e compreendo. Isso faz parte da vida que ELAS têm que viver. Compreendo também que posso ajudar mas que também preciso de ajuda. Fico feliz por estar vivo e espero continuar vivendo e aprendendo com meus erros e acertos. Se eu fosse um herói, talvez não cometesse erros, mas com certeza eu nunca poderia entender o que é viver.

Autor: Rafael Laranjeira Toscano

É pessoal, demoro muito pra fazer atualizações mas elas uma hora aparecem AUHAUHAUUAH

Desculpem-me pelo tamanho do texto e se deixei passar algum erro de português. Não tive tempo pra revisar o texto e, portanto, n sei se deixei passar algum erro bobo.

Espero que gostem. ^^

Até a próxima!

Lembranças de Verdade

Sabe aqueles dias onde algumas lembranças nos incitam a sair da rotina? Hoje é um daqueles! Lembrando-me de ter lido, a poucos dias, um texto de Fernando Pessoa, decido revirar meus ármarios e procurar por algum texto interessante. Ao retirar uma biografia de Einstein (recente até!) de um dos armários eis que cai, sobre meus pés, um pequeno papel com algumas citações rabiscadas à caneta que, por improviso, foi promovida a marca-página anos atrás.

Passando a vista pelas citações, retenho-me em uma que há anos não leio.

“Amo mentiras, é verdade! Amo também àquelas verdades de mentira. O que seríamos sem elas? Sabemos que, para viver, sonhar é preciso. E o que são os sonhos além de verdades? Acredito também que a vida seja feita de escolhas: ou se vive para morrer ou se morre por ter vivido. Eu escolhi amar!”

Pablo Queiruja

Tendo terminado esta breve leitura, lembro-me de contos, lendas, poesias e livros ja lidos e penso: quantos ainda lerei? Quantos já não terei esquecido? Guardo o papel com a certeza de que, algum dia, voltarei a encontrá-lo (“meu antigo marca-páginas”) e com a esperança de que lembranças como as de hoje voltem a me relembrar como é bom viver!