Domingo Macabro Nº 1 – Um Detalhe Inconveniente

Olá, pessoal. Tudo bem? Espero que sim…

Trago pra vocês o primeiro de uma série de posts que apelido de “Domingo Macabro”, onde postarei diversos contos de terror para vocês. Eu gosto muito de escrever contos de terror pois as ideias sempre surgem de situações inesperadas. Este, particularmente, surgiu num dia em que eu estava indo trabalhar e, no ônibus, sentei ao lado de uma mulher que carregava no colo um garoto bem pequeno e franzino. Ela me olhava de um jeito assustado, com medo, como se eu fosse agarrar seu filho pelos braços e sair correndo por aí! Então, comecei a pensar num personagem de uma mãe assustada e que tem pânico e… enfim, espero que gostem do conto e, se for o caso, acompanhem os próximos posts.  Um grande abraço e uma boa leitura!

***

É engraçado como simples detalhes são capazes de travar nossas pernas, acelerar nosso coração e fazer com que suemos frio. Naquela noite de domingo, Isabela acabava de voltar de viagem com seu marido Vinicius. Eles haviam passado o final de semana num chalé em Penedo, comemorando seus dez anos de casamento e apreciando a ótima combinação entre vinho, frio, montanha e fondue. Seu filho, Carlos, pedira para ficar em casa. “Eu nunca fico sozinho e nunca pedi para ficar. Essa é a primeira vez que peço!”, resmungou ele. E com razão! Sendo assim, após conversar com seu marido sobre o assunto, Isabela decide que não havia problema nenhum em aprovar pois, afinal, seu filho já estava bem grandinho para cuidar de si mesmo por um final de semana. Assim, todos ficariam felizes e satisfeitos.

Vinicius havia lhe deixado na porta de casa, dizendo que precisava encontrar seu amigo Henrique, do clube de xadrez, para lhe dar um abraço e os parabéns pelo aniversário de trinta anos. Afinal, não é todo dia que fazemos trinta anos, concorda?  Ela não precisaria se preocupar com as malas pois Carlos, como sempre, ajudaria-lhe a tirar tudo do carro.

Após seu marido virar a esquina, Isabela pega suas chaves e dirige-se até a porta de casa. Mas, sequer houve necessidade de usá-las: ao tentar encaixá-la na fechadura, percebe que a porta está entreaberta. “Mas que droga! Já falei mais de mil vezes pra esse garoto trancar a porta e ele a deixa assim, escancarada? Ah, mas ele vai ouvir poucas e boas!”, pensou, irritada.

Ao abrir a porta, a primeira coisa que Isabela percebe  é uma grande poça de vômito sobre o carpete da sala. Ela poderia pensar nas festinhas adolescentes, no seu filho passando mal por ter comido alguma porcaria comprada na esquina ou em qualquer outra coisa. Mas nada disso passa pela sua cabeça. Ela sequer consegue pensar! Sem saber o porquê, vê-se paralisada sob o arco da entrada, com o coração acelerado e com um forte enjoo. Além disso, aquela visão fazia com que Isabela sentisse um calafrio que lhe arrepiava da cabeça aos pés.

Após alguns segundos de paralisia, Isabela recobra os sentidos e começa a processar tudo à sua volta. Alguma coisa estava errada, muito errada: a porta aberta, a poça de vômito, as luzes apagadas e o silêncio profundo. Tudo que conseguia ouvir era o som do vento cruzando a casa pelas janelas abertas. Toda aquela escuridão e frio lhe deixavam com medo. Sendo assim, a primeira coisa que fez ao entrar foi acender as luzes e fechar a porta.

“Carlos? Cheguei!”, tentou gritar, mas tudo que saiu de sua boca foi um som rouco e abafado. Esperou por mais alguns segundos, mas não obteve respostas. “Ou ele está em seu quarto, ou não está em casa!”  pensou e, lentamente, caminhou em direção ao quarto mais próximo. Assim como a porta principal que dá para a sala, a do quarto de Carlos encontra-se aberta. Porém, com uma pequena diferença: a luz está acesa e, de dentro, um som de uma música lenta e repetitiva pode ser claramente ouvido. Sem pensar duas vezes, corre até a porta e a abre rápida e abruptamente.

No centro do quarto encontra-se Carlos, sentado sobre um pequeno banco de madeira. Sua cabeça pendia para frente, com seu queixo encostado no peito. Seus olhos estavam vendados com um pano que em algum momento do passado era branco, mas que agora possuía tons de vermelho. Havia sangue espalhado por todo o quarto: mãos nas paredes, rastros no chão e uma grande mancha sobre o tapete abaixo de Carlos.

“Não, isso não pode estar acontecendo! Estou em um pesadelo!”. Sem pensar em mais nada, Isabela corre até seu filho e remove a venda de seus olhos. Sua cabeça, pendendo mole e sem vida, lembrava-lhe um boneco de pano. Ao levantá-la, Isabela percebe que, no lugar onde ficavam os olhos, havia simplesmente dois grandes buracos vermelhos.  Suas mãos congelaram e seu grito desesperado exalava todo o seu pavor. Tudo o que conseguia ouvir era a batida do seu coração acelerado. À sua volta, tudo ficava cada vez mais escuro.  Após o que lhe pareceu uma eternidade, a música que antes tocava lenta e repetitiva transformara-se numa gargalhada seca e lúgubre.

No lado oposto do quarto, atrás de Carlos, encontrava-se um armário de madeira. Sobre ele, um rádio onde seu filho costumava ouvir suas músicas favoritas e um grande espelho com a imagem refletida de um corpo inerte sobre um banquinho, uma mulher choramingando assustada e, atrás desta, um homem com um martelo na mão, rindo desenfreadamente.

Desesperada, Isabela corre e se tranca no banheiro do quarto. Apoiada na porta, Isabela tenta ouvir o que se passa lá fora e, após alguns segundos de silêncio, escuta o som oco da bota grossa sobre a madeira vindo em sua direção. Ao sentir o crescente cheiro podre vindo de fora, Isabela começa a passar mal. Com uma das mãos, alcança o celular no bolso da calça e tenta usar a discagem rápida para ligar pro seu marido. Nenhum sinal da operadora. Logo em seguida a forte pancada na porta faz com que Isabela se assuste e derrube o celular no chão. Pancada atrás de pancada, buracos surgem na frágil porta. Sem saber mais o que fazer, Isabela cata as partes do celular que se espalharam pelo chão, corre para o canto do banheiro e, sob o chuveiro, agachada, tenta remontá-lo o mais rápido possível. Pressiona o botão de power e aguarda nervosa enquanto a tela de inicialização exibe cores debochadas: segundos preciosos jogados pelo ralo. A rajada de ar vinda da porta, agora aberta, aperta-lhe o coração como garras frias e afiadas. Antes mesmo que pudesse se virar, Isabela sente uma forte pancada na cabeça e tudo fica escuro como uma noite sem estrelas.

– Amor? Você está bem? – Isabela abre os olhos ao custo de fortes dores. Sua cabeça lateja e uma convulsão de cores toma-lhe os sentidos. Após alguns segundos de adaptação à luz ambiente, Isabela não podia ver imagem mais reconfortante e surpreendente: em pé ao seu lado na cama, encontra-se Vinicius e Carlos, ambos com um grande sorriso no rosto. Ela tentou se segurar – na verdade, em toda sua vida, Isabela sempre se segurou e sempre quis passar aquela imagem de mulher forte e guerreira -, mas não conseguiu: as lágrimas saiam sem pedir permissão e tudo que ela conseguia fazer era chorar e abraçar os dois grandes amores da sua vida.

– Mãe, a senhora me perdoa?

– Te perdoar? – e, assim, a lembrança dos acontecimentos lhe atinge como um raio.

Ao sair do carro Isabela pega suas chaves e dirige-se à porta. Ao tentar encaixá-la na fechadura, percebe que a porta está entreaberta. O medo faz com que simples detalhes como este transformem, de um minuto ao outro, todo nosso estado de espírito. A alegria e a saudade tornaram-se uma raiva apreensiva. Uma raiva branda, daquelas amenizadas pela esperança de que, apesar do recado não ter sido seguido, tudo está bem. Irritada – porém temendo o pior – Isabela tenta gritar por seu filho, mas tudo que sai da sua boca é um som rouco e abafado. Percebendo uma grande mancha sobre o carpete e a luz do quarto do seu filho acesa, Isabela tenta correr mas, ao dar o primeiro passo, escorrega na pequena poça de suco de laranja no chão e bate fortemente com a nuca no assoalho liso e frio.

– Sim, mãe. Eu sujei a casa e não limpei e a senhora quase morreu.

Inesperadamente, Isabela solta uma alta e breve gargalhada – as dores ainda lhe podavam as ações.

– Tudo bem, filho, tudo bem. Eu te perdoo, tá? Tudo poderia ter sido bem pior…

E, ignorando as dores e o cansaço, dedica ao seu filho o abraço mais gostoso já dado em sua vida.

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