O Paradoxo e o Sentido de Ser Humano

Acordo em meio a essa chuva e meu primeiro pensamento não é na janela aberta, nem nos meus gatos ou no que comi há algumas horas. A primeira coisa que pensei foi: quantas pessoas estão sob os escombros dos prédios que caíram no centro histórico do Rio de Janeiro? Uma pergunta tão matemática, tão fria, tão objetiva e simplista esconde muito mais do que aparenta. Ela é ladeada e inspirada em pensamentos muito mais profundos, muito mais complexos e, também, instiga-me a pensar e a questionar muitas coisas sobre as pessoas que conheço e a mim mesmo – o meu maior desconhecido.

Qual a única certeza que temos em vida? A morte. Porém, o que mais me causa estranheza é o fato de que, todos os dias lutamos para nos firmarmos sobre uma base sólida, para criarmos certezas. Não gostamos do incerto pois a incerteza é inimiga do conforto. E quem quer sair da sua zona de conforto? Nos agarramos a certezas tão incertas, a mentiras mascaradas de verdades… queremos viver mais, mas esquecemos, todos os dias, que a única certeza que temos na vida é a morte e, com isso, deixamos de dar valor aos detalhes, às belezas e às coisas que amamos.

Quantas vezes deixamos de agir ou afastamos a felicidade por causa de medos absurdos? Ou, ao contrário, agimos, mas de maneira destrutiva, causando repulsa aqueles que nos amam? Por causa de falsas verdades que criamos para não sairmos da nossa zona de conforto? Por acreditarmos que sabemos de tudo e que a vida é regida por fórmulas frias e banais? Pensamos e tememos tanto o futuro, mas tanto, que deixamos de viver o agora com medo que todas as nossas certezas venham a desmoronar, como aqueles prédios no centro do rio. Mais uma vez, esquecemos que o futuro transforma-se em presente a cada segundo e que, dez anos se passarão sem sequer percebermos e, quando olharmos pra trás, perceberemos que demos poucos passos. Enquanto isso, a morte – certeza renegada -, nos aguarda quieta e paciente.

Algumas pessoas olham ao mundo sem fazer especulações. Jogam o que lhes define como humano para o canto mais obscuro de seu lar, pois têm medo de perceber que são humanos. Porque Humanos sentem dor, sofrem, têm prazer e têm momentos de felicidade. Mas isso é tão arriscado! Para que ser humano se tudo é tão difícil? Mas essas pessoas, justamente por abandonarem sua essência, não sabem que, mais cedo ou mais tarde, aquele ser que ele tanto desprezou, que tanto maltratou, e que deixou acuado nos cantos mais sombrios uma hora retornará à procura de liberdade e de tudo aquilo que lhe foi tolhido. E quando isso acontecer, ele olhará pra trás e entenderá que, mesmo sem percebermos, o ponteiro do relógio se mexe sim, devagar, devagar, devagar… e a morte, paciente e fria, estará lhe estendendo a mão, dando boas vindas à nova morada.

Trechos – A Hora dos Assassinos

Não li sequer a metade do livro e já tenho trechos fantásticos separados, que gostaria de compartilhar aqui.

Obras muito boas como “A Hora dos Assassinos”, de Henry Miller, são muito maiores que seu autor, como diz um grande amigo meu. Algumas obras são capazes de transformar gerações, de instigar-nos a sair da nossa zona de conforto e começarmos a pensar. Sair um pouco do chão e nadar, nem que seja por algumas horas. Essa experiência pode instigar-lhe a uma fome indescritível, que nenhuma palavra será capaz de saciar. E essa fome é capaz será capaz de moldar seus atos e sua própria alma. Talvez ela seja um espelho capaz de mostrar-lhe partes desconhecidas de si próprio ou mesmo um telescópio, capaz de lhe fazer enxergar muito além.

Trago aqui dois trechos que gosto muito e que não pude deixar de compartilhar com vocês.

 

Quanto às aparencias, bem, o homem que os outros vêem aos poucos foi aprendendo a se acomodar às imposições do mundo. Hoje ele é capaz de estar nele sem fazer parte dele. Pode ser amável, gentil, benévolo, hospitaleiro,. Por que não? “O verdadeiro problema”, como frisou Rimbaud, “é tornar a alma mostruosa”. O que significa não horrenda, mas prodigiosa! Qual o sentido de monstruoso? Segundo o dicionário: “qualquer forma organizada de vida extremamente anômala, seja por falta, excesso, deslocamento ou distorção de partes ou órgãos; por consequinte, tudo o que for horrendo ou anormal, ou constituído de partes ou caracteres inconsistentes, sejam repulsivos ou não.” A raiz vem do verbo latino moneo, advertir. Na mitologia, reconhecemos o monstruoso sob as formas da haripa, da górgone, da esfinge, do centauro, da dríade, da sereia. Todos são prodígios,que é o sentido essencial da palavra. Perturbaram a norma, o equilíbrio. O que significa issso senão o medo do homem comum? 

 As almas tímidas sempre vêem monstros pela frente, seja lá o nome que tenham, hipogrifos ou hitlerianos. O maior pavor humano é o da expansão da consciência. Toda a parte assustadora, hedionda da mitologia deriva desse medo. “Vivamos em paz e harmonia!” suplica o medíocre. Mas a lei do universo determina que a paz e a harmonia só podem ser conquistadas pela luta intima. O medíocre não quer pagar o preço desse tipo de paz e harmonia; quer encontrá-lo já pronto, feito terno confeccionado em série na fábrica.
***
Apesar dos desmentidos dos cientistas, o poder que agora temos em nossas mãos é radioativo, é permanentemente destruidor. Jamais nos lembramos do poder para o bem, só para o mal. Não há nada de misterioso em torno das energias do átomo; é nos corações humanos que reside o mistério. A descoberta da energia atômica ocorreu simultaneamente com a descoberta de que nunca mais poderemos confiar uns nos outros. É aí que está a fatalidade – neste modo apocalíptico que nenhuma bomba pode eliminar. O verdadeiro renegado é o homem que perdeu a fé em seu semelhante. Hoje essa perda é universal. Nesse sentido, o próprio Deus nada mais pode fazer. Colocamos a nossa fé na bomba e é ela que atenderá nossas preces.
***
O poeta hoje é tão obrigado a desistir de sua vocação porque já demonstrou seu desespero, já reconheceu a própria incapacidade de comunicar-se. Ser poeta era antigamente a vocação mais sublime; hoje é a mais fútil. E isso não porque o mundo seja imune às súplicas do poeta, mas porque ele mesmo não acredita mais no caráter divino de sua missão. Já vem cantando fora de tom há mais ou menos um século; por fim não conseguimos mais sintonizar. O assobio da bomba ainda tem sentido para nós, mas os delírios do poeta parecem disparates. E são um disparate se, de uma população mundial de dois bilhões de habitantes, apenas um punhado finge entender o que o poeta individual está dizendo. O culto da arte não preenche sua finalidade quando só existe para meia dúzia de homens e mulheres privilegiados. Então não é mais arte, mas a linguagem cifrada de uma sociedade secreta para a propagação de uma individualidade descabida.  A arte é algo que incita as paixões humanas, que dá visão, lucidez, coragem e fé. Que artista da palavra, nestes últimos anos, incitou o mundo como Hitler? Que poema abalou o mundo, recentemente, como a bomba atômica? Desde o advento de Cristo que não se viam cenas semelhantes a se desenrolarem, se multiplicarem, diariamente. Que armas tem o poeta, em comparação? Ou que sonhos? Aonde foi parar a sua decantada imaginação? A realidade está aí, diande de nossos próprios olhos, completamente nua, mas onde está o cântico para anunciá-la? Existe algum poeta visível, de quinta magnitude ou menos? Não vejo nenhum. Não chamo de poeta quem apenas faz versos com ou sem rima. Para mim, poeta é aquele homem capaz de alterar profundamente o mundo. Se houver um poeta desses vivendo entre nós, que se proclame. Que levante a voz! Mas terá que ser uma voz que possa abafar o estrondo da bomba. E que use uma linguagem que derreta os corações humanos, que faça borbulhar o sangue. Se a missão da poesia é despertar, há muito tempo que deveríamos ter acordado. É inegável que alguns acordaram. Mas agora são todos que devem despertar – e imediatamente – senão pereceremos. Só que o homem jamais perecerá, fiquem tranquilos. O que corre o risco de perecer é a cultura, a civilização, o estilo de vida. Quando esses mortos despertarem, e é certo que despertarão, a poesia será a própria essência da vida. Podemos arcar com a perda do poeta se em troca preservarmos a poesia. Não se precisa de papel nem tinta para criar ou disseminar a poesia…
Este livro foi escrito em 1955, por Henry Miller e continua atual. Não vou falar muito mais sobre o livro. Espero que tenham gostado e que venham a lê-lo, para melhor entender sobre o que se trata. E quem já leu, que possa relembrar um pouco das suas palavras e do que ele representa.

V de Vingança – texto da prisão

Olá! Gostaria de postar aqui o texto do filme V de Vingança que a Evey recebe quando está presa. Se você não viu o filme, por favor, NÃO LEIA O TEXTO AGORA! Veja o filme primeiro. Na minha opinião, esse é um dos textos mais bonitos já escritos e passados no cinema. Espero que esse texto, essa história, lhe traga um pouco mais de humanidade. Tomei a liberdade, como de costume, de destacar os trechos que mais gosto.

 

Sei que não posso te convencer que isto não é um dos truques deles, mas não me importo.

Eu sou eu.

Meu nome é Valerie. Não acho que viverei muito mais tempo e queria contar minha vida para alguém. Esta é a única autobiografia que escreverei, e, meu Deus, estou escrevendo em papel higiênico. Nasci em Nottingham em 1985. Não lembro muito dos anos iniciais, mas lembro muito bem da chuva. Minha avó tinha uma fazenda em Tottlebrook e ela me dizia que Deus estava na chuva. Passei da 11ª série e fui para a aula de gramática para garotas. Foi na escola que conheci minha primeira namorada. Seu nome era Sarah. Seus pulsos me atraíram, eles eram lindos. Pensei que nos amaríamos para sempre.

Lembro da minha professora ter nos dito que era uma fase de adolescentes que todos superavam. Sarah superou. Eu não. Em 2002, apaixonei-me por uma garota chamada Christina. Nesse ano, eu assumi com meus pais. Não teria conseguido se a Chris não estivesse segurando minha mão. Meu pai nem me olhou. Me mandou embora e disse para nunca mais voltar. Minha mãe não disse nada. Eu apenas contei a verdade, isso foi tão egoísta assim?

Nossa integridade é vendida tão barato, mas é apenas isso que temos de fato. A última polegada que nos pertence. E nessa última polegada, somos livres.

Sempre soube o que queria fazer com minha vida e em 2015, comecei meu primeiro filme: “The Salt Flats”. Foi o papel mais importante de minha vida. Não por causa da minha carreira, e sim porque conheci Ruth. A primeira vez que nos beijamos, soube que seus lábios seriam os únicos que eu ia querer beijar. Mudamos para um pequeno apartamento em Londres. Ela plantou Scarlet Carsons para mim na nossa caixa de janela. E nossa casa sempre cheirava a rosas. Foram os melhores anos de minha vida. Mas a guerra nos EUA ficou cada vez pior e acabou chegando à Londres. O projeto de lei proposto pelo sub-secretário de defesa Adam Sutler de fechar o resto das estações de metro passou com unanimidade hoje. Depois disso, as rosas acabaram para todos.

Lembro como o significado das palavras começou a mudar. Como palavras incomuns como “colateral” e “Efetivação” tornaram-se assustadoras. A guerra sem sobreviventes e os “artigos de lealdade” tornaram-se poderosos. Lembro que “diferente” tornou-se sinônimo de “perigoso”. Ainda não entendo porque nos odiavam tanto. Pegaram Ruth enquanto estava comprando comida. PARA SUA PROTEÇÃO. Nunca havia chorado tanto em toda minha vida. Não demoraram para virem me pegar. Parecia estranho que minha vida iria terminar em um lugar tão terrível. Por mais de três anos eu tive rosas e não pedi desculpas para ninguém.

Morrerei aqui.

Cada polegada de meu ser perecerá. Cada polegada… menos uma. Uma polegada. É pequena e frágil. Mas é a única coisa no mundo que vale a pena ter. Nunca devemos perdê-la ou entregá-la. Nunca podemos deixar que nos tomem isso. Espero que seja quem você for, consiga escapar deste lugar.

Espero que o mundo mude e que as coisas melhorem. Mas o que mais espero é que compreenda o que quero dizer quando digo que ainda que eu não te conheça ou vou jamais te conhecer, amar com você, chorar com você, ou te beijar.

 

Eu te amo.

De todo coração eu te amo.

Valerie

Sobre Reciclagem, Educação e Papéizinhos

No Brasil o governo não investe no que deveria investir (nisto não há nenhuma novidade) e poucos são aqueles – refiro-me não somente a indivíduos, mas a instituições, grupos e afins – que possuem o hábito de reciclar. Algumas pessoas pensam em reciclar assim como pensam em escovar os dentes: é algo natural, cotidiano, dia-a-dia. Mas a maioria dos brasileiros vê a reciclagem como algo diferente, distante, incompreendido e, muitas vezes, desnecessário, supérfluo… Tem pessoas que nunca ouviram falar nessa palavra!

 

Chocolate! O que veio em sua mente?

Reciclagem! E agora?

 

Não temos reciclagem como parte da nossa cultura. Isso é um fato! Poucas são as cidades do Brasil (sim, muito poucas!) que possuem uma boa infra-estrutura de reciclagem, que fazem coleta seletiva. Não pesquisei na internet para basear meus argumentos. Estou falando pela vivência, por viagens, por familiares. Se a reciclagem fizesse parte da nossa cultura eu teria entrado em contato com ela muitas, mas muitas vezes. Já tive a oportunidade de estar em cidades e bairros onde caminhões passam periodicamente recolhendo itens reciclados. Meu contato com o mundo da reciclagem resume-se a tais cidades, à instituição onde estudo e a algumas lojas e empresas que se preocupam com isso – ilhas em um mar de descaso e ignorância.

 

Gostaria de citar aqui um exemplo. Na cidade onde moro eu sei que existem postos de coleta, sei que existem lojas que aceitam lixo reciclável. Sei que posso separar todas as pilhas que uso e levar para uma dessas “ilhas em um mar de descaso”, mas sei de poucas pessoas que fazem isso. Não vejo nenhum vizinho meu separando lixo, ou sequer se preocupando com esse tipo de coisa. “Dá trabalho!”. Para ser justo, vejo sim, mas eles são raros.

 

Por que isso acontece? Por falta de educação! Por falta de infra-estrutura. Porque o governo não liga para isso. Porque as empresas também não ligam. Quando digo infra-estrutura eu me refiro a fácil acesso aos pontos de reciclagem. Como citei, existem cidades que fazem a coleta de porta em porta. A prefeitura dá incentivo à reciclagem. Mas e a minha e muitas outras no Brasil? Eu simplesmente tenho que separar meu lixo, pegar um ônibus lotado e levá-lo todo dia até um local específico? (Sim, nem todo mundo tem carro). Além disso, quantas são as pessoas que sabem que podem fazer isso?

 

Você, leitor afortunado, pode achar tudo isso um absurdo. “Como assim, não reciclar? Que absurdo! Como assim, nunca ter ouvido falar nisso? Isso não existe!”. Pasme, essa é a realidade. Você pode ter sido educado e estar acostumado com tudo isso, mas a maioria das pessoas não está!

 

Isso pode ser melhorado, claro, com investimento do governo. Mas devemos ficar sentados esperando? Claro que não! Não acredito em Papai Noel e sequer no Coelhinho da Páscoa. Se o governo não faz, porquê não podemos fazer? As empresas, por exemplo, poderiam começar investindo na educação de seus funcionários. Se cada empresa incorporar essa “ideia” de reciclagem em todo o ambiente de trabalho, fazendo com que os funcionários tenham amplo contato com ela, eles passarão a entender melhor como a reciclagem funciona, estarão imersos em um contexto diferente, poderão acabar apreciando/entendo/gostando e tomando-a como algo viável e natural em suas vidas.

 

Devemos ampliar nosso campo de visão para o mundo e não olharmos somente para o próprio umbigo! A maioria das pessoas age como o cavalo que só olha para a frente, ignorando tudo a sua volta. E devemos isso à falta de educação, ao egoísmo e muitas outras coisas.

 

“Por que não jogar papel no chão? Ah, só um papelzinho não faz diferença!”

 

É esse pensamento egoísta que, infelizmente, move a sociedade. Temos a tendência de ignorar as coisas simples, os detalhes. Imagine a região metropolitana do Rio de Janeiro (a segunda maior aglomeração urbana do Brasil, segundo o IBGE), que possui 11.711.233 habitantes (novamente, dados do IBGE, referentes a 2010). Agora imagine cada um desses 11.711.233 jogando 1 papelzinho de bala por hora no chão. Se eu, em cinco horas jogar um papelzinho no chão, terei jogado somente cinco unidades de papelzinho. Agora imagine toda essa gente fazendo a mesma coisa! É muito papelzinho, concorda? Faça as contas. Qual a consequência disso na minha vida e na vida das pessoas ao meu redor?

 

“Vivemos pouco, então pensemos no agora e que se dane o futuro!”

 

Tendemos também a pensar em medidas a curto prazo. Sabemos que se jogarmos comida no sofá de casa, em poucas horas o cheiro e a sujeira irá nos incomodar, mas não hesitamos em poluir os rios, os oceanos: afinal, vou morrer e não vou sofrer as consequências disso tudo! Isso pode parecer algo idiota, mas é esse o status-quo social.

 

Portanto, acredito que o primeiro passo para a “um mundo melhor”está na educação. E nisso cada um pode contribuir. O segundo passo está em aprender a dar valor aos detalhes. O terceiro é deixarmos de ser egoístas.

 

“Pfff… que diferença isso tudo faz em minha vida?”

 

Bem, primeiro dê o primeiro passo.

 

Vingança Nua e Crua

     Essa noite era uma daquelas que Mateus costumava chamar de “difíceis”. Em casa, sozinho, após um dia longo e estressante, tudo o que ele mais queria fazer era tirar os sapatos já nem tão bem engraxados como mais cedo, jogar-se sobre o sofá grande e macio e, assim, descansar ao som de uma música calma e reconfortante. E foi isso que ele fez. Ligou a TV em um daqueles canais de gêneros musicais e sequer se preocupou em fazer uma escolha. Gostava da aleatoriedade daquele ato e só se preocuparia depois, caso necessário, com a reação de trocar de canal ou entregar-se por completo.

     Ah, como aquela música era gostosa! Uma batida lenta, ritmada e suave, um blues que há muito não ouvia. Quantas vezes ele já não sentara e viajara com aquela música, como agora? Talvez devido à influência do cansaço, entregar-se foi muito fácil e, mais rápido do que supusera, aquela melodia lenta e gostosa tocava-lhe a pele como os lábios doces e macios de um longo beijo. O calor de suas notas era como um abraço apertado ou o carinho no pescoço que sempre lhe arrepiava a pele. Quando menos esperava, viu-se desnudo na alma, entregue à mercê de sua própria solidão. Ah, e como isso era bom!

     E foi assim – não pela primeira vez, veja bem! – que, nessa intimidade só sua, ele percebeu que aqueles beijos e abraços calorosos, que aquela pele cheirosa e macia, que aquele cabelo roçando-lhe a face não era fruto de uma mente criativa, nem mesmo de uma realidade reconfortante, mas sim parte das inúmeras lembranças de Marcele. O que a alguns segundos era serenidade transformara-se em um sentimento triste de perda e saudade. Aquela solidão companheira e compreensiva de outrora mostrava sua cara em um sorriso maléfico, dançante, ao som daquele maldito e incansável blues. “Solidão! Pfff… A mão que afaga é a mesma que apedreja! Nunca pensei que Augusto dos Anjos estivesse tão certo. Já deveria ter me acostumado!”, pensou. Após um longo suspiro, levantou-se e desligou a TV.

   Marcele era uma daquelas mulheres que viviam sempre com um sorriso no rosto. Sempre que ouvia essa música ele se lembrava do quanto ela gostava de sentar ao seu colo e sussurrar baixinho cada palavra em seu ouvido. Gostava de pensar que herdara dela essa paixão pelo aleatório.

          – O que você quer fazer agora, amor? – perguntava ele, sem conseguir se segurar.

          – Pare de pensar e deixe rolar. Dance comigo ao ritmo da vida. – era essa a resposta habitual de Marcele e também a sua favorita.

     Embalados pela “música da vida” e pelo blues, o casal decidiu, numa noite abafada de fevereiro, pegar o carro e realizar um sonho que há muito planejavam: viajar sem destino, conhecendo novas estradas, novos hotéis, novas paisagens.

             – Precisamos sair um pouco da rotina, querido. Precisamos acordar com a incerteza, entende o que quero dizer? Estou cansada de acordar sabendo que vou levantar, fazer a comida, fazer isso e aquilo. Vamos? – dizia ela com um sorriso tão lindo e meigo que nem mesmo o Papa seria capaz de recusar-lhe um favor, por mais pecaminoso que fosse.

     A única exigência de Marcele era que ela passasse na casa de seu amigo Carlos para que pudesse pegar sua necessaire que havia esquecido no dia anterior, após o final de semana no qual Carlos ofereceu um churrasco para os amigos e alguns familiares em comemoração ao seu novo cargo na empresa. “Fui promovido a gerente administrativo, porra! Exijo a sua presença aqui em casa nessa sexta-feira. Pode trazer o seu namorado também, claro.” Foram exatamente essas as palavras repetidas por Marcele após a breve conversa com Carlos ao telefone.

   Sendo assim, após separarem algumas roupas, dinheiro e todas as coisas que julgavam básicas e fundamentais para viajantes, Marcele pegou seu  carro e se dirigiu até a casa de Carlos. Mas as coisas não ocorreram como o planejado.

     A lembrança calorosa do seu amor sempre vinha acompanhada do inevitável calafrio da lembrança daquele acidente de carro. Era como estar na praia em um dia ensolarado e, de repente, uma nuvem pesada estagnasse em frente ao Sol, causando desânimo e desapontamento. Só de pensar no destino trágico de sua noiva ele sentia náuseas, náuseas essas que sempre lhe minavam a vontade e a esperança de um futuro feliz. “Se não fosse por aquele imbecil ela ainda…”, mas não gostava de pensar nesse tipo de coisa. Como um simples detalhe pode acabar com a vida de uma pessoa? Se ela não tivesse esquecido aquela necessaire. Se o idiota do Carlos não tivesse insistido TANTO para que ela comparecesse àquele churrasco…

     Ele não conseguia lembrar de uma imagem sequer daquele acidente e isso, de certa maneira, lhe gerava duas sensações distintas: a primeira era tranquilidade, pois ele preferia lembrar-se de uma Marcele alegre e com vida. Já a segunda era inquietude. O trauma fora tão grande que sua mente bloqueara, por proteção, qualquer lembrança – por menor que fosse – daquele evento. E isso era um tanto quanto curioso.

     Tentando livrar-se daquela solidão sufocante, Mateus decide “dar uma volta”, como costumava dizer, pelos bares da rua. E por “dar uma volta” ele queria dizer “encher a cara”. Mas não foi necessário chegar ao primeiro bar, à calçada, ou mesmo abrir a porta para matar sua carência de companhias inúteis: quando virou-se para sair encontrou seu amigo Maurício sentado numa cadeira próxima à porta, com as mãos cruzadas sob o queixo.

             – O que você está fazendo aqui? E como entrou? Você me deu um baita susto, idiota! – disse Mateus, pego de surpresa.

     Maurício, com seu sarcástico  e habitual sorriso no rosto, olhava para Mateus sem dizer uma palavra. “Há meses que não o vejo e esse filho-da-mãe sequer mudou a barba!”, pensou Mateus.

            – O tempo passa e você continua ridículo e chorão. Impressionante! Além disso você não perdeu o péssimo hábito da chave sob o capacho. Já cansei de lhe dizer que a culpa não foi sua. Se existe um culpado nessa história toda e que está impune até agora é o tal do Carlos.

           – Que seja! Não há nada que eu possa fazer. Foi pra isso que você veio aqui? Para encher o meu saco?

           – Na verdade eu vim aqui porque me preocupo com você. Já passou da hora de você dar um ponto final nessa história toda e, para que servem os amigos além de apoio e incentivo?

     Nesse momento, Maurício levanta de sua cadeira e dirige-se ao quarto de Marcele. Mateus o segue, incrédulo, sem sequer desconfiar das intenções de seu amigo. Maurício abre a porta, dirige-se à cômoda da parede a esquerda e abre uma gaveta. Ele parecia saber o que estava fazendo. Movia-se e agia como se a casa fosse sua e como se conhecesse cada cômodo, cada gaveta, cada segredo.

          – Eis o que você deve fazer. Ou não tem culhões para isso? Planejamos isso tudo a toa? – e, após dizer tais palavras, Maurício joga sobre a cama arrumada uma pasta gorda e inchada, repleta de fotos e papéis rabiscados. A imagem daquela pasta veio em sua mente como um coice. Quando viu Maurício sentado naquela cadeira, na sua sala, ele no fundo sabia o porquê daquela visita. Eles haviam conversado sobre ela logo após o acidente com Marcele. “Voltarei daqui a alguns meses. Preciso arrumar minha vida antes de voltar”, disse Maurício na época. Mas aquela pasta e aquela visita pertenciam a um lado obscuro da sua vida. Um lado que Mateus lutava para se livrar, para destruir, mas que nunca conseguia. Afinal, de uma forma ou de outra, aquilo tudo fazia parte do que ele era. Livrar-se da sombra era o mesmo que amputar uma parte de si. E ninguém quer isso, concorda?

   Empolgado como uma criança montando seu novo brinquedo, Mauricio expunha o material e os planos que eles tinham registrado naquela pasta. Ao ver aquelas imagens do homem que culpava pela morte de sua namorada, Mateus não conseguiu evitar os pensamentos de vingança. Seu lado sombrio acordara e voltava à superfície de maneira tão rápida e feroz que não foram necessários nem dez minutos para que Mauricio lhe convencesse e ele decidisse, de forma definitiva, a por seu plano em prática.

     Passados alguns dias, tudo estava preparado. O plano era simples, sujo e fácil: eles sabiam que Carlos costumava correr aos sábados a noite e, logo depois, voltar para casa, tomar um banho e ficar assistindo TV, acompanhado apenas de algumas latas de cerveja, até cair no sono. Aos domingos ele era acordado por uma linda mulher que lhe fazia visitas pontuais, as oito horas da manhã, e costumava passar o dia todo com ele. Pois ela teria uma desagradável surpresa ao acordá-lo no próximo encontro. Uma vingança nua e crua.

***

     A noite estava clara e tranquila. Pelo menos no bairro pacato onde Carlos morava. Olhando para ver se ninguém estava por perto bisbilhotando, Mateus corre para a lateral esquerda da casa, onde ficava a garagem. Ao lado do portão maior para o carro, havia um menor que levava a um corredor estreito entre a casa e o muro. Sem muita dificuldade, Mateus pula e fica escondido, aguardando Carlos voltar de seu cooper noturno. Após uns vinte minutos de espera, a luz do poste mais próximo denunciou sua chegada. Gira a chave, bate a porta, caminha a passos firmes. Cada movimento podia ser ouvido pela parede de madeira e Mateus aproveitava isso tentando alcançar alguma janela próxima. Em pouco tempo ele ouve um barulho de chuveiro. “Agora é a hora!”, pensou. Lentamente ele abre a janela da sala e entra, sem muitas dificuldades.

     O cômodo estava escuro. A única luz que iluminava o ambiente era a do banheiro onde Carlos tomava banho. O ar pesado e com forte cheiro de livros e tabaco lhe fez lembrar uma casa de um senhor escritor: uma grande estante de mogno envernizada e repleta de livros antigos. No centro, uma pequena mesa, também de madeira, ladeada por poltronas coloniais. No chão, um grosso carpete vermelho que abafava os passos de qualquer um que lhe pisasse. Mateus duvidava que algum dia Carlos tenha lido algum daqueles exemplares de Filologia ou que sequer tenha perdido noites de sono escrevendo naquela mesa. Nada daquilo era a sua cara. Talvez essa casa tenha sido passada de geração em geração, de pai para filho.

     Imerso naquele ambiente, Mateus ergue a faca com a mão direita contra a luz vinda do banheiro. Sua mão estava firme, nada de tremedeiras. Isso era um bom sinal. Significava que não hesitaria, que era exatamente isso que deveria ser feito. Caminhando a passos curtos, Mateus aproxima-se da porta do banheiro. Carlos estava cantarolando alguma música ridícula e infantil, como se estivesse alegre ou algo assim. A porta estava entreaberta e um vapor denso saia por ela. Arriscou uma olhadela de um olho só. A porta do box estava aberta. Nela, duas toalhas penduradas. Ele estava tão distraído com sua canção e com a água caindo sobre seu rosto que sequer foi capaz de perceber quando Mateus aproximou-se sorrateiramente. Com um único golpe, enfia-lhe a faca entre as costelas, tapando-lhe a boca. Tudo que se ouvia era o barulho da água caindo no chão e os suspiros abafados de Carlos. A faca penetra-lhe a carne uma, duas, três, quatro vezes, e, após longos segundos, Mateus sente o peso da pessoa morta em seus braços e o deita no chão. No semblante de sua vítima era possível distinguir o pavor e o medo.

     Seus braços, calça, camisa… tudo estava repleto de sangue. Uma grande sujeira. Levantou então o braço e desligou o chuveiro. Ficou sentado em meio àquela bagunça pelo que lhe pareceram horas até que, em meio àquele vapor, aparece a imagem de Marcele vestindo uma camisola rosa. Sua pele continuava branca como a neve, lisa; seus cabelos negros, soltos, caídos sobre seus ombros delicados: idêntica à última noite que estavam juntos. Exceto pelo lindo sorriso que não mais existia. Seu semblante era de tristeza e nojo. Tudo aquilo era muito real. Real como se nunca tivesse havido acidente algum. Como se os dias não tivessem passado e eles tivessem acabado de voltar daquele churrasco. Como se há poucas horas estivessem conversando sobre viajar, desbravar o mundo e ir pegar a necessaire na casa de Carlos.

             – O que você fez? – suas palavras chorosas tocaram Mateus de uma maneira horrível. Tudo aquilo ERA real. Ele não estava sonhando com Marcele: ela estava ali, viva, a poucos passos de distância.

     E, lentamente, a sua memória foi ficando clara como o dia e ele pôde se lembrar. Não houvera acidente de carro, nem mesmo a morte de Marcele. Tudo aquilo fora um sonho, uma invenção da sua mente doentia. Agora Mateus se lembra dela saindo de casa para pegar sua necessaire e demorando para voltar. Lembra-se das fotos do detevive particular, dos meses de investigação e da raiva por saber o motivo real daquela visita. Lembra-se do momento em que pegou as chaves do carro e dirigiu até a casa de Carlos, com ódio. Lembra-se de como entrou pela porta da frente que estava encostada, do cheiro de tabaco, da luz do banheiro e da triste realidade que se apresentava: Marcele e Carlos estavam tendo um caso. E de, por fim, em seu desespero, ter procurado por uma faca, de como dera fim à vida daquele homem e de como jogara tudo que construíra na vida pelo ralo.

             – A polícia já está a caminho. Você nunca deveria ter saído do hospital. Isso tudo é culpa minha. Eu pensei que estivesse curado.

             – A culpa não é sua… – respondeu Mateus.

     E então, mais uma vez, Mateus esperou, olhando pela última vez para a mulher que amava, ouvindo a risada fria de seu amigo Maurício que na sala ouvia um blues melancólico que só os dois eram capazes de ouvir.

Rafael L. Toscano

*********************************

   Olá! Agumas das pessoas que chegaram até aqui – e leram todo o conto! – podem estar com algumas perguntas na cabeça. Eu deixei uma questão em aberto de propósito. Isso faz parte do “psicológico” (como assim?) do texto, da história, do personagem Mateus. Se tiverem alguma dúvida, crítica (construtiva), correção (sempre escapa algum erro bobo) ou opinião podem deixar um recado neste conto que eu terei um enorme prazer em respondê-los.

   Esse é o primeiro conto desse estilo no blog. Espero que não tenha ficado ruim, rs.

   Desculpem-me se a formatação do texto não estiver muito agradável.

   Até o próximo conto!

Escrevendo…

Eu quero que você leia meus textos e sinta, em cada frase, uma sensação diferente. Quero passar com cada nome de personagem, em cada situação, um sentimento, uma impressão. Posso escolher um nome que lhe faça pensar no verão, em calor e sol, assim como posso tentar passar uma sensação de chuva e escuridão. Mas ai você pode se perguntar: como conseguir isso se cada pessoa pode perceber e sentir situações de maneiras diferentes?     

Sei muito bem que a maneira como percebemos acontecimentos é guiada por uma quantidade de fatores que tende a infinito. Para exemplificar eu gostaria de citar o por do sol. Sentado sozinho em uma praia, olho para o horizonte e vejo o Sol se por tão lentamente, daquela maneira como o tempo move o ponteiro das horas e faz crescer barba e cabelo. Como percebê-lo? Isso vai depender de detalhes mais óbvios e locais como, “Meu dia foi bom? Estou bem? Briguei ou me diverti muito? O que me trouxe a essa praia?”, assim como informações mais macroscópicas e globais, como, “Estou solteiro ou casado? Meu dia foi ruim, mas tal problema tem sido uma constante ou uma variável instável? Essa é a primeira vez que estou aqui, olhando para este sol, sentindo-o, ou faço isso com muita frequência?”. Ou seja: o “como” e o “o que” sentir são definidos pelo que somos. Tem tudo haver com o momento e com as experiências.  Faz parte de nossa personalidade.

Voltemos então ao por do sol. Num momento ruim, posso olhar para ele e pensar na morte e na mentira. Uma morte de mentira. Uma pequena travessura da natureza. O sol morre, esta é a impressão que tenho. Ele some e tudo vira trevas. Tudo acabou. Mas no outro dia ele volta e repete sua mentira para todo o mundo ver e lembrar que o fim sempre chega. Ele pode demorar e se mover de tal modo que não sejamos capazes de perceber – lembra-se do ponteiro do relógio? -, mas ele sempre chega. A hora sempre chega!

Agora, se estou olhando para o sol e me sinto bem, feliz, bem feliz, o poente pode ser interpretado como um fenômeno diferente. Olho para o mar e vejo o reflexo de seus raios tortos, perfeitos em sua imperfeição. Vida! Aprecio o vento que cisma em afirmar que estou vivo. Ah, e como isso é bom!  Uma verdade que a natureza vem nos mostrar com o início da noite. Sinto um calor interno, saudade e certeza. Certeza de que dias como o de hoje podem se repetir. Quem sabe amanhã ou depois? Quiçá mês que vem? Ninguém sabe quando, mas ele virá e, apesar de todas as coisas chatas e problemáticas, fico aliviado de que, amanhã – de sabe-se lá -, poderei me sentar aqui mais uma vez e pensar somente em como é bom viver, pois, como diria Fernando Pessoa: “As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.

Respondendo, então, à pergunta, posso dizer que tal escrita não me parece fácil e, muitas vezes, diria impossível. Mas, acredito, que todo escritor tem na escrita alguns objetivos intrínsecos. E escrever, muito mais que uma simples obrigação de “fazer sentir”, está mais ligado ao “sentir” em si. Muitos escrevem por desafio, por obrigação, para provar alguma coisa a outrem ou a si mesmo, outros escrevem para que lhe enxerguem com maior nitidez ou para que possa enxergar melhor a si mesmo. Aprendizado! Existem também aqueles que fazem de suas crias um espelho. Alguns côncavos, outros convexos. Poucos planos, claro. Outros escrevem pelo simples prazer de criar realidades, personalidades, pessoas únicas e singulares. Quem não gosta de brincar um pouco de Deus?  Enfim, cada escritor tem seus próprios objetivos, seus porquês, uma pitada de personalidade que define cada um de seu trabalho, seja este amador ou profissional. Mas, talvez, um dos grandes porquês reside no sentimento. Portanto, acredito que o ato de escrever é tão similar ao ato de leitura, a sentar-se ao por do sol e aproveitar o momento. A grande diferença é que, o sol – inspiração – é diferente para cada um de nós.

um lobo

Furtivo e cinza na penumbra última,
vai deixando seus rastros pela margem
daquele rio sem nome que saciou
a sede de sua goela e cujas águas
não repetem estrelas. Esta noite,
o lobo é uma sombra que está só
e que busca uma fêmea e sente frio.
É o último lobo da Inglaterra.
Sabem-no Odin e Thor. Em sua alta
casa de pedra um rei determinou
que acabassem com os lobos. Já forjado
está o forte ferro de tua morte.
Lobo saxônico, engendraste em vão.
Não basta ser cruel. Tu és o último.
A mil anos daqui um homem velho
te sonhará na América. De nada
há de servir-te esse futuro sonho.
Hoje te cercam os homens que seguiram
floresta afora os rastros que deixaste,
furtivo e cinza na penumbra última.

Jorge Luis Borges

Borges dispensa apresentações. O escritor argentino, um dos maiores prosadores da língua espanhola, de estilo inconfundível e inimitável, inspira diversos escritores ao redor do mundo. Suas palavras nos conduzem a sentimentos e interpretações diversas, uma viagem prazerosa ao vasto mundo da literatura.

Cada viagem é única, como um rio “cujas águas não repetem estrelas”. Tais viagens, muitas vezes, são impelidas pelos rastros deixados por lobos, furtivos e cinzas na penumbra. Mas o viajante também deixa seus rastros. Estes, em diversos momentos, confundem-se com os de outros lobos, e sua viagem não é só sua.

A que lugares as palavras do texto de Borges te levam? Quais autores e quais pessoas deixaram rastros capazes de incitar-lhe a viagens incríveis?

Desejo a todos uma ótima viagem. Até a próxima!

O Escritor

O escritor queria escrever. Sentou-se em sua cama, travesseiro sob cabeça, caderno sobre colo e lápis na mão. Tudo em seu devido lugar. Mas o que isso significa? “Onde é o meu lugar?” – pensava o escritor. Devo escrever? Devo ler? Devo amar ou odiar? Comer ou beber? Dormir ou continuar acordado? Sonhar ou… E o escritor pensava, pensava e pensava mais um pouco. Não sabia qual livro ler ou qual história escrever. “Há tantas opções!” – dizia para si mesmo. E o caderno ansiava pelo grafite durante horas e horas, sem nada obter, até que o escritor caísse no sono, deixando ambas, escrita e leitura, para o mundo dos sonhos e pesadelos.

A mesma história se repetia noite após noite, dia após dia, e o escritor nada escrevia. E os anos, assim como o caderno e o lápis, eram trocados e descartados na lixeira do tempo.  Ele passou a ser conhecido como o homem-que-nada-fazia. Todas as vezes em que olhava o espelho ele enxergava o reflexo de uma casca sem vida e sem cor. E quando falava em voz alta, sua voz lhe era estranha e seus pensamentos não eram mais seus. Um estranho de si mesmo! Mas eis que um dia o estranho escritor decidiu escrever. Não aquela decisão que havia tomado há anos, mais sim uma atitude concreta.

Suas primeiras palavras surgiram tímidas e fracas, contando o relato de sua própria história. E quanto mais ele escrevia, mais tinha vontade de escrever. As respostas que tanto procurava surgiam de seus atos, assim como um leque extenso de novas perguntas. “Ler ou escrever? Por que temos que escolher?” E devagarinho foi percebendo que todo escritor é também um leitor, e que ele ama, vive, odeia, come, erra e acerta.  Assim como é também o pai, o amigo, a mãe, o vizinho, o inimigo mortal ou o amor de uma vida.

E o escritor percebeu que também era um livro cujas páginas eram escritas a cada passo, a cada choro, a cada sorriso… E que sua história poderia ser lida e vivida por muitos.

Somos muitos em um, mas também um em muitos.

E assim o escritor entendeu que o seu verdadeiro lugar era no livro da vida.

Rafael L. Toscano

Se eu fosse um herói

Existem aqueles dias em que você SABE que precisa escrever. Não porque está inspirado ou algo parecido, mas simplesmente porque você sabe que a única maneira que você tem de SE entender e de que, talvez, algumas pessoas entendam – nem que seja uma parte ínfima do todo – o que se passa na sua cabeça é através da escrita. Em nossas vidas existem muitas coisas boas e muitas coisas ruins. A maioria das pessoas simplesmente tenta se afastar das coisas ruins e se apegar às coisas boas, até mesmo quando essas coisas não existem. Apegam-se a ilusões, criam suas próprias verdades e muitas vezes esquecem das consequências. Outras pessoas têm consciência disso tudo e, justamente por isso, tentam salvar as pessoas que amam das coisas ruins e dar tudo de bom para elas. Essas pessoas tentam fazer com que seus amigos vivam em um mundo de bondade, tentando resolver todos os seus próprios problemas e os problemas dos demais. Elas tentam, mas super-heróis não existem! Eles podem até existir, mas hoje me dei conta de que não sou um deles.

Se pudéssemos carregar todos nas costas…! Quando tentamos, nossas pernas falham, sentimo-nos cansados e de uma hora pra outra acabamos deixando tudo cair. Pelo menos é assim que me sinto nestas horas. De uma forma ou de outra existem coisas nas vidas das pessoas que nós não podemos e não devemos interferir. Talvez porque não seríamos capazes de resolver seus problemas – apesar de sempre acreditarmos que sim -, talvez porque elas têm de andar com as próprias pernas. Se não, pra que haveriam elas de ter pernas? E alguns de nossos problemas tomam vida em rincões inalcançáveis pelas outras pessoas. Sendo assim, elas nunca poderão entender o problema em si e, portanto, somente nós seremos capazes de resolvê-lo. As outras pessoas podem simplesmente AJUDAR. Mas devemos lembrar que ajudar não é sinônimo de “resolver tudo para os outros”…

Infelizmente eu descobri algumas dessas coisas um pouco tarde. Mas como dizem por ai: antes tarde do que nunca! Sabe aqueles momentos em que você só consegue pensar nas coisas ruins que aconteceram com você e nas pessoas a sua volta e não consegue se lembrar das coisas boas? Nessas horas, quando você as lembra, elas aparecem somente para lhe mostrar o quão ruim está a sua situação. Isso acontece como se as coisas boas lhe fossem bloqueadas de alguma maneira, como se alguém tivesse criado uma barreira entre os momentos alegres e tristes e lhe jogassem no lado da tristeza. Você fica sufocado com tudo isso e luta desesperadamente pelo ar, como se estivesse morrendo afogado. Você olha para o futuro e só consegue enxergar o presente: um beco sem saída, uma mente degenerada pelas mágoas e… Neste momento aparecem as lágrimas e até aquelas palavras que você não tinha coragem de dizer. Em alguns casos, quando a “salvação” não se demonstra possível, você acaba optando
pela opção que lhe parece mais fácil: o suicídio. E o mais engraçado nisso tudo é que, como na procura desesperada pela vida, você acaba optando pela morte?

Você sobrevive e para pra pensar. Pensa em tudo o que foi e tudo o que é. Nos erros e acertos, em como seria se tivesse tomado pelo menos um passo em outra direção e como as pessoas lhe enxergam. Ah, se eu fosse um herói! Olho agora para as coisas ruins que aconteceram com as pessoas que amo e compreendo. Isso faz parte da vida que ELAS têm que viver. Compreendo também que posso ajudar mas que também preciso de ajuda. Fico feliz por estar vivo e espero continuar vivendo e aprendendo com meus erros e acertos. Se eu fosse um herói, talvez não cometesse erros, mas com certeza eu nunca poderia entender o que é viver.

Autor: Rafael Laranjeira Toscano

É pessoal, demoro muito pra fazer atualizações mas elas uma hora aparecem AUHAUHAUUAH

Desculpem-me pelo tamanho do texto e se deixei passar algum erro de português. Não tive tempo pra revisar o texto e, portanto, n sei se deixei passar algum erro bobo.

Espero que gostem. ^^

Até a próxima!

Olá! Dou início a seção de “trechos e Livros” com um trecho do livro “Uma Crença Silenciosa em Anjos”, de R.J. Ellory, que fala justamente sobre… livros!

Uma Crença Silenciosa em Anjos

Uma Crença Silenciosa em Anjos

–Estou falando sério – disse ela. Levantou-se da cadeira à mesa da cozinha. Deu a volta e ficou em pé atrás de mim. Massageou meus ombros e senti a tensão do dia escoar como água. -Todo mundo tem um livro no coração – disse ela. – Algumas pessoas têm dois ou três ou vinte. Quase todo mundo sabe disso, mas não consegue fazer muita coisa a respeito. Você pode, então deve. Senão vai ficar aborrecido com você mesmo, o tipo de aborrecimento que está toda hora voltando para lhe lembrar que não vai embora.

p. 222, Alexandra Webber para Joseph Vaughan.

Este livro nos mostra a fragilidade de nossos destinos e o peso que atribuímos ao passado. Nos mostra como que, num simples piscar de olhos, nossas vidas podem passar por mudanças drásticas, deixando cicatrizes que muitas vezes tentaremos esconder, mas que sempre estarão presente para nos lembrar quem fomos e o que nos tornamos.

“Best-seller” lançado na inglaterra pelo autor R. J.Ellory, em agosto de 2007, “Uma crença Silenciosa em Anjos” chegou ao Brasil através da Editora Intrínseca. Leitura mais-que-recomendada!

Agora só nos resta aguardar a tradução (ou um exemplar em inglês ^^) do mais novo livro de Ellory, “A Simple Act of Violence.”, que vem recebendo os mais diversos elogios.